Nove dias

À D., que continua a ser uma influência positiva na minha vida.

    Tenho tentado, mas é-me difícil escrever sobre o período em que ela cá esteve: nunca sei como expor o texto, sob que forma apresentar os factos. Provavelmente porque esses nove dias, de Sábado de manhã a Domingo à noite, foram uma espécie de bolha, tão diferentes do resto da minha vida.

    A começar pela presença dela, claro. Dormirmos no mesmo quarto; eu acordar e vê-la. Eu voltar do Técnico e estarmos juntos; almoçarmos juntos, sairmos juntos, voltarmos juntos à tarde ou à noite, jantarmos juntos, deitarmo-nos juntos. Durante essa semana inteira ela esteve sempre comigo (salvo nas relativamente escassas horas em que eu estava nas aulas, mais duas corridas de bici em que participei (e que ganhei) e uma ida ao cinema com a E.). E, para quem passa a maior parte da vida sozinho, ter sempre alguém ao lado é uma diferença significativa: ter alguém com quem desenvolver qualquer pensamento que queiramos partilhar; que participa, gostemos ou não, nas triviais decisões que estamos continuamente a tomar; que nos faz rir e refletir e nos conta histórias; alguém em quem podemos tocar se ocasionalmente nos apetecer contacto humano (endorphiiins!). Obviamente que, se não fosse com ela que tivesse estado, não era a mesma coisa, mas acho que posso concluir: é melhor. Em geral, gosto pouco da solidão, de os meus pensamentos não terem por onde vaguear senão dentro de mim, numa câmara ecóica que às vezes – muitas vezes – não amplifica senão a demência, a angústia e a abulia. De não ter ninguém com quem trocar umas palavras singelas, que ajudem a tornar real, pelo ato de o dizer, aquilo que vivo; ninguém que confirme ou conteste uma decisão. E, mais grave, não consigo não pensar que, não havendo nenhum observador externo, o meu comportamento e as consequências dele se esgotam em mim próprio, e assim sendo porque preocupar-me?
    [noto que começo a soar meio insano, o que é ligeiramente alarmante; por outro lado, hoje passei todo o dia sozinho, pelo que isso que vem confirmar o que estou a dizer. if I am by myself for like a week, I get weird.]
    Estando lá outra pessoa, tudo muda; entre outras coisas, o nosso comportamento é – ou nós pensamos que ele é, o que acaba por ir dar ao mesmo – observado e analisado, e isso leva a uma reflexividade constante que tende a ser profícua: querermos mostrar aos outros o nosso melhor.
    Como consequência imediata (mesmo) disto surge outra diferença desse período, a minha atitude. Nada das costumeiras longas horas a apodrecer e deixar o tempo escorrer-se, inútil e estéril, em frente ao computador, enquanto toco guitarra distraído e penso no que farei no resto, cada vez mais curto, do dia. Não, havia sempre algo que fazer: ir ver um filme (argh! horrendo) ao Indie; ir a Belém, ou à Gulbenkian, ou ao Colombo. Pegar no carro e ir a Sintra e ao Cabo da Roca e ao Guincho. Ir ao parque junto a minha casa e trepar à pirâmide e ficar lá empoleirados a conversar. Apanhar o elétrico e ir à Sé e descer até à Baixa, Lisboa como fundo da nossa relação, cada conversa ligada a um sítio e uma luz específicos. Ou então simplesmente eu, a conseguir pôr o meu talento como motivador alheio em prática, a fazê-la fechar o facebook e escrever o trabalho que tinha de entregar. Ou a fazer, voluntariamente e por mim, o jantar – sim, com comida a sério, verificando o que venho dizendo: que cozinhar para nós e outra pessoa é tão agradável como cozinhar só para nós é fastidioso. Ou a ir às aulas de manhã, sem me questionar nem hesitar, saindo deixando-a a dormir e voltando antes de almoço – sem ela lá fá-lo-ia com o mesmo imediatismo e simplicidade?
    Outra diferença, que me absterei de desenvolver, foi a divertida atmosfera de hipersexualidade que permeou toda a semana e boa parte das nossas conversas, significativamente estimulada – não que precisássemos – pela presença da I. Foi, note-se, por completo acaso – daqueles que, quando refletimos neles a posteriori, se parecem integrar inconsutilmente no fluir dos acontecimentos — que a I. surgiu e que acabou por ser uma presença significativa nessa semana, destacando-se a sua presença em três momentos: 1 – ela e I., comigo atrás, caminham de São Sebastião ao (famoso) restaurante chinês ilegal da Mouraria enquanto conversam animadamente e vão descobrindo pontos em comum; 2 – eu, ela, I. e F. (um gang de quatro vegan@s, yay) passeamos Lisboa acima e abaixo e vamos comer fatias enormes de bolo de chocolate à Bake the Difference, que entretanto infelizmente fechou; 3 – eu, ela, I. e T. vamos sair à noite na LxFactory e no Bairro Alto com a rena de borracha feminista/benfiquista/sindicalista (que fez bastante sucesso (nota: arranjar rena de borracha?)) e bebemos e divertimo-nos.

    E, sobretudo, a mudança que foi estar com alguém ativo, ambicioso e produtivo (
tome-se como exemplo o já referido trabalho que ela fez, todo, ao longo da semana: ela conseguiu, em nove dias já bastante ocupados por outras atividades, escrever vinte páginas para um trabalho para a universidade sobre doença mental em emigrantes marroquinos, com uma profusão de entrevistas a antigos emigrantes que lhe tinham falado, às vezes com reticências (elas próprias estudadas e analisadas), da sua história pessoal. um trabalho por vezes anedótico e desconexo, com poucas citações e pouca contextualização, mas sólido, diversificado, claro, cheio de informação. pequeno detalhe relevante: nome e atitude de cada entrevistado, história de emigração e problemas de aceitação no país de acolhimento e consequências destes na sua saúde mental, praticamente tudo era falso: ela conseguiu inventar vinte páginas de pessoas e vidas e ocorrências com suficiente detalhe e credibilidade para apresentar à universidade como relatório de um trabalho de mais de um mês.
). Alguém que define objetivos e se esforça para os cumprir (motivation is like showering: its effects don’t last, but that’s why you should do it daily), sem nunca deixar de ser congenitamente pessimista e deprimido. Alguém que, apesar de tudo isso, ainda consegue ser fundamentalmente altruísta e hedonista: que age e faz as coisas que deve fazer, seja por si ou pelos outros, e se dedica completamente a elas, e para quem o sofrimento dos outros é intrinsecamente indissociável da sua falta dele e não lhe permite ignorá-lo; mas alguém que ainda assim gosta de estar com pessoas e ver coisas e beber e foder.

    Por falar nisso: sem ela, nunca me teria apercebido de que gostava da E. Mas isso é outra história.

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