Nadar

     Um nadador, quando está a nadar mal, não sente que a água lhe está pesada, que lhe custa avançar. Pelo contrário: a água parece-lhe leve, imaterial, escorre-se por entre os dedos, não se opõe ao girar dos braços nem ao rodar do tronco nem ao bater das pernas. A sensação da falta de resistência oferecida pela água faz-lhe sentir o seu esforço como fútil, e os seus movimentos como imprecisos, descontrolados. Juntam-se a isso o cansaço muscular que acompanha um treino de natação, e que leva instintivamente a reduzir ou desleixar certos movimentos, mais a apneia forçada a que a atividade inerentemente obriga, que o deixa ansioso por poder respirar livremente e o faz detestar brevemente os segundos que passa submerso, e finalmente a leve frustração inerente às idas e vindas constantes na piscina, dezenas de cada, uma cambalhota em cada extremidade. E, claro, o vazio sensorial: não ouvir senão os gritos e apitos dos treinadores abafados pela água; um campo de visão todo ele azulado, só ocasionalmente entrecortado pela passagem doutros corpos a nadar, na mesma pista ou na do lado, que provoca eventualmente um breve reconhecimento, e pelas linhas marcadas no chão, dos vinte e cinco metros (metade já passou) e das bandeiras (esta já está). Este vazio permite-lhe a concentração em qualquer elemento do corpo, que dedo entra primeiro na água à sua frente, se os cotovelos estarão altos ou baixos, se as pernas estão convenientemente esticadas. E nos ritmos: as bolhas que expele, submerso, pela boca, os sons da água em que a mente se vai focando e que se tornam numa espécie de mantra demente, a poliritmia complexa da contagem do bater das pernas e de como se encaixam com cada braçada. Isto nos exercícios mais longos do treino, em que a mente, que tem horror ao vazio, se tenta agarrar a qualquer coisa, à contagem das piscinas, ou dos metros, por exemplo, já tem seiscentos, no fim desta ida e vinda terá setecentos, e depois só lhe ficam a sobrar trezentos e descansa quinze segundos e vai para a terceira série de mil, uma já lá vai, e às vezes de tanto pensar nisso acaba por confundir tantos números e procura guiar-se pelo colega que vai à frente, quando ele parar eu paro. Já no aquecimento a mente pode-lhe vaguear sem problemas, ao fim de tantas horas, semanas, meses a nadar e tantas idas e vindas (se ele decidisse fazer as contas, veria que já vai nas dezenas de milhares) e tanto aperfeiçoamento da técnica nos últimos anos, os movimentos natatórios tornaram-se-lhe espontâneos, automáticos, pode deixar-se ir, ainda dividido entre a memória já distante da cama e o choque, que nem o hábito nunca suavizará, da entrada na água, pelos primeiros oitocentos ou mil metros de cada dia, enquanto nos exercícios rápidos nem para pensar há tempo nem vontade nem oxigénio, cada braçada tem de ser arrancada à dor que o invade, e só quando toca na parede é que se vai permitir pensar que com esta já foram doze de cem estilos e que ainda faltam oito com quinze segundos de intervalo e desses entretanto já passaram cinco.
     Mas valia a pena. Valia a pena pela caminhada da piscina ao balneário, músculos a latejar das dores acumuladas do esforço e do alongamento, pele arrepiada pelo ar circundante, calções molhados colados às formas que cobrem. E depois, por se ver ao espelho por cima dos lavatórios, pele baça do cloro – cujo cheiro perpassa por todo o edifício –, cabelos alisados e compactados pela pressão da touca, marcas vermelhas dos óculos à volta dos olhos, abdominais salientes e definidos, um a um, veias salientes nos bíceps; por se sentir atraente e por isso sorrir para si mesmo. E por se poder justificar o prazer de meio minuto imóvel no duche quase dolorosamente quente, o roçar áspero da toalha, os risos com os colegas enquanto se vestia. E o passo elástico com que saía do edifício da piscina, o arrepio causado pelo vento frio no cabelo húmido, e sobretudo a satisfação de ver as caras mal-dispostas e ensonadas de toda a gente enquanto ele tinha acabado de nadar uma distância que eles nem poderiam imaginar antes do pequeno-almoço e ainda tinha um dia inteiro à frente.

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