Pausa

Este texto foi publicado no Nº 16 do Jornal Pedal.
A ideia de o escrever na segunda pessoa do singular foi inspirada por “Forever Overhead”, de David F. Wallace.

       Paraste no topo do Parque Eduardo VII, até onde vieste das Amoreiras, aproveitando um momento morto do teu dia. Há-os, inevitavelmente. Gostas da vista daqui, no enfiamento da Avenida da Liberdade, dominando a Baixa, ladeada por colinas, o castelo castanho e verde à esquerda e o estuário do Tejo em frente; e, hoje, a limpidez do dia permite distinguir claramente todas as baías e convexidades da Margem Sul e as formas da Arrábida, imponente apesar da distância. Gostas de todas as vistas, na verdade, pela sensação de domínio topo/carto/geográfico que oferecem.
       Comes uma empada de tofu e bebes um sumo de pacote, este mais por motivos de deglutição do que de hidratação: nunca te chegariam estes duzentos mililitros. Para te lembrar disso, o vento que faz oscilar ruidosamente a bandeira nacional atrás de ti e desvia o jato de água que irrompe continuamente da escultura fálica que sempre te baralhou passa-te junto à pele, e o contacto do ar fresco com o suor que a recobre faz-te arrepiar por um instante. Vem-te à mente o oximoro ‘incómoda carícia’. Ris-te brevemente. Pensas na rapariga da loja que te vendeu a comida, nos olhares e sorrisos que não sabes serem cordiais ou insinuantes.
       Verificas no telemóvel que não perdeste nenhuma chamada nem mensagem, e ao constatar que permaneces ignorado tiras da mochila o livro que estás a ler há já algumas semanas. Não conseguirias discorrer sobre ele, se to pedissem: só o tens lido em momentos fugazes e distraídos como este, e notas que a complexidade da linguagem, a polifonia da narração e a não-linearidade da narrativa o têm tornado, para ti, impenetrável. Consideras abandoná-lo ou recomeçá-lo.

       Olhas para a bicicleta que deixaste a teu lado e na qual já fizeste hoje mais de meia centena de quilómetros, e sentes um quase impercetível desconforto nos ílios, nos pulsos, no períneo, resultado dos desgastes acumulados na semana que se aproxima do fim. És estafeta de bicicleta, é de esperar que isto aconteça, supões; e antes estas atrições ligeiras, subtis, expectáveis do que outros impactos mais violentos, abruptos, manentes.
       És bom no que fazes. Pensar no assunto deixa-te desconfortável: sempre gostaste de te diminuir. Mas não consegues evitar o pensamento: és, provavelmente, quem se desloca mais depressa em Lisboa. Nas corridas efémeras do teu quotidiano, deixas sempre os táxis e até as motas para trás; quando as há, costumas ganhar as entre ciclistas, ou pelo menos ficar nos primeiros lugares. Atravessas a cidade em menos de quinze minutos, e estás habituado a olhares surpreendidos de quem, não acreditando nas tuas previsões, contava esperar por ti e não o contrário.
       Deslocas-te na cidade com uma facilidade que, frequentemente, até a ti te desconcerta, quando num cruzamento confuso com carros a vir de todas as direções tomas uma linha que te surgiu numa fração de segundo e sem abrandar evitas por pouco uma colisão sangrenta e continuas a pedalar, já com os olhos e a mente no cruzamento seguinte. E usas o trânsito: às vezes, agarras-te à caixa aberta duma carrinha, ao aileron ou vão de roda dum carro, ao suporte da antena dum táxi, e sem pedalar vais circulando a quarenta até que num semáforo ele pára e tu segues confiante e quase eufórico. Além disso, fortalece-te os braços, esperas. Onde conheces de cor o padrão das paragens, encostas-te à traseira dos autocarros para diminuir a resistência do ar, e a transição do bafo estático e quente e poluído para o vento fresco que de repente se opõe a ti surpreende-te sempre. Captas a informação à tua volta sem esforço e sem pensar nisso: com um olhar, prevês o comportamento do condutor que vai sair do estacionamento e do peão que vai passar na passadeira, estes dois com alguma análise morfo-psicológica à mistura, enquanto ouves que uma mota te vai ultrapassar e ainda notas um buraco na estrada e vês se o semáforo lá à frente está verde e planeias a tua trajetória em função disso tudo, e ajustas-te pedalando mais ou menos e inclinando o corpo para onde queres ir, e isto centenas de vezes por dia até um ponto em que o fazes tão inconscientemente que és figura de corpo presente nos teus próprios movimentos. Achas que o filme Premium Rush representa bem todo este processo mental, e refletes momentaneamente no quanto o Joseph Gordon-Levitt é atraente.
       Três ou quatro vezes por dia, decides andar sem mãos só pelo estilo, e se cruzas uma rapariga gira no passeio ou se consegues fazer uma curva apertada ficas particularmente contente.
       Gostas de pensar que um estafeta de bicicleta vê o trânsito como mais ninguém; a sua existência processa-se toda numa incessante subversão das regras estabelecidas, na descoberta dos espaços negligenciados pelas limitações físicas de carros e até motas: o corredor de retrovisores por onde deslizas num engarrafamento, o intervalo fugaz e volúvel e acima de tudo móvel entre a bagageira anterior e o capô seguinte quando passas um semáforo vermelho.
       Antes da reconfiguração do esquema de trânsito, adoravas fazer o Marquês de Pombal sem abrandar entre a Fontes Pereira de Melo e a Liberdade. Já andaste na Segunda Circular e no Eixo Norte-Sul, e neste já chegaste aos setenta à hora. Conheces o nome de centenas de ruas e dezenas de padrões de semaforização e localização de buracos no pavimento. Já foste a zonas da cidade que ainda desconhecerias de outra forma; já entraste em grandes empresas e embaixadas e prédios de escritórios como os dos filmes, com um jardim interior e elevadores de vidro e portas sem nome. Na sede dum banco na Baixa e num pequeno escritório de contabilidade em Carnaxide e no terminal de carga do aeroporto. Tens os teus trajetos preferidos, que alteras entusiasticamente quando te vês batido por outro ciclista; evitaste a Rua da Escola Politécnica durante quase um ano depois dum acidente nos filhos da puta dos carris de elétrico, inutilizados há quase duas décadas mas ainda um perigo constante.

       Quanto dizes o que fazes a alguém, a tua voz ainda se ilumina com um harmónico de felicidade, mas não estás tão satisfeito como já estiveste: a novidade de haver quem te pague para pedalar esgotou-se ao fim de algum tempo, e agora afiguram-se-te a falta de progressão, o perigo constante e consequente a que te expões, o sucesso e seriedade e adultidade dos teus amigos. Fazes vagas conjeturas de mudança de atividade. Tentas imaginar-te daqui a dez anos mas és absolutamente incapaz de conjurar a mais pequena representação mental do que isso poderia ser; desistes.
       Borrifam-te uns pingos que água que uma rajada de vento fez chegar até ti vindos do repuxo ejaculatório que permanecerás sem compreender. Sentes-te só: a escassez das dez meias dúzias de palavras trocadas com os clientes do dia fazem-te chegar ao fim do dia carente de contacto humano profundo, que a internet e o livro que manténs aberto com o polegar mas que deixaste descair até à cintura não te oferecem. Voltas a pensar na rapariga que te vendeu a comida: vais tentar voltar a comer lá, para ter a certeza.
       Um trinado eletrónico e uma rápida vibração surgem-te da perna direita. Recebeste um serviço, a recolha longe de onde estás, e longe da entrega; um percurso Sul-Norte junto ao rio onde prevês vento contra. Resignado, arrumas o livro inútil, deitas fora os pacotes do sumo e da empada, pões a mochila às costas. Arrotas; tens sede. Sobes os degraus com a bicicleta ao ombro, pousa-la, montas-te, e partes.