Juventude, crise, Europa

Este ensaio foi escrito para um concurso promovido pelo eurodeputado Rui Tavares, para escolher os jovens que participariam na conferência Juventude em Crise, no Parlamento Europeu, em Abril de 2013.
Obrigado à C., que insistiu para que eu participasse.

     Para nós, jovens portugueses, viver em incerteza parece inevitável: podemos ficar em Portugal, precários ou desempregados, sem hipóteses de futuro, de nos tornarmos adultos e independentes; ou podemos sair para a Europa, e ficar a meio entre o país onde vivemos e o que continuamos a considerar nosso.
Talvez uma alternativa a este paradigma de indefinição pudesse advir de abraçarmos voluntariamente a nossa identidade europeia. Sairmos de Portugal, não para sermos portugueses deslocados pela crise, à espera de melhores dias, mas para sermos europeus que, com naturalidade, procuram desenvolver a sua vida: não noutro país, mas noutra subdivisão do nosso território, da Europa.
     Estou a acabar um Mestrado; tinha 2 anos quando entrou em vigor a livre circulação dentro da Europa, e 11 quando adotámos o euro. Dos meus amigos portugueses, nunca nenhum viveu noutra cidade portuguesa, mas quase todos já viveram noutro país europeu. Já muito antes da tróica, as nossas leis dependiam das da Europa e as infraestruturas eram financiadas por ela; só falta tornarmo-nos, nós, europeus.
     Não perderíamos assim tanto. A predominância do avião suprimiu-nos muita da identidade territorial: para um lisboeta, Braga e Viana são mais distantes e abstratas do que Praga e Viena. Manteríamos a identidade linguística, claro, que continuaria a ser uma mais-valia num espaço europeu ainda com Portugal e que terá de lidar cada vez mais com um Brasil em ascensão. Quanto ao património comportamental (“nós em Portugal somos…”), não só muito dele são clichés, que fazemos por verificar por auto-identificação, como a diversidade entre nós sobrepor-se-lhes-á sempre; podemos aproveitar o que dele acharmos benéfico na construção da nossa nova identidade, e ficaremos mais bem servidos. Além disso, vermo-nos como europeus poderia ainda contribuir para um menor domínio cultural dos Estados Unidos, o que seria benéfico para toda a Europa: os Tara Perdida podem não ser tão bons como os NOFX, mas os Toten Hosen talvez sejam.
     Para muitos, que já multiplicam amigos e conhecidos por todo o continente, que já votaram, se manifestaram e associaram lá fora, que já trabalharam e começaram a construir a vida noutro país, seria uma mudança de atitudes, mais do que de ações; converter-nos-íamos em algo parecido aos imigrantes de segunda geração, mas à escala europeia. E talvez este processo venha a ocorrer naturalmente: mesmo que a integração política da Europa retroceda, a sua interdependência económica e geográfica dificilmente diminuirá, pelo que, queiramos ou não, seremos cada vez mais europeus.
     Seria, num sentido, doloroso: tornarmo-nos europeus implicaria decidir ficar de fora a ver as notícias de cá, deprimidos, a ver Portugal definhar e a situação dos que cá deixámos degradar-se. Seria, e isso é o pior de tudo, ter de fazer uma escolha entre nós e o país; e nós, os jovens, até ganharíamos, mas o país perderia – e está a perder – de certeza. É uma escolha que nunca quisemos, mas que talvez tenhamos de fazer. Podíamos experimentar.