Sonho de uma noite recente

        A P., referida no texto Straighten the rudder, estava, dois meses depois de eu a ver pela última vez, de regresso a Lisboa, por uma qualquer razão; encontrava-se no meu quarto, em cima da minha cama, e eu estava com ela. Começamos, lentamente, a fazer as coisas que tendem a levar àquilo que as pessoas fazem nessas situações.
        O interruptor da luz do meu quarto não funcionava; não sei se a luz não acendia, se não apagava; mas o interruptor não funcionava e eu estava irritado com isso. Levanto-me da cama e vou tentar resolver o problema.
        Tento forçar o interruptor. Empurro para um lado, para o outro. Ela está em cima da cama à minha espera.
        Peço-lhe para esperar. Dou umas porradas no interruptor; nada. Ela pergunta-me se não me vou juntar a ela.
        Vou buscar uma chave de parafusos [não sei porquê; os interruptores não têm parafusos]. Abro o interruptor; as peças de plástico que pressionam os fios elétricos não estão em contacto com eles como deveriam. Penso em como resolver o problema. A P. está claramente impaciente.
        Tento, com fita-cola, prender as peças do interruptor no sítio. Não resulta; o mau contacto não se resolve; o interruptor continua a não funcionar. Ela, farta, vai-se embora, e eu acabo de perder a oportunidade de voltar a estar com ela.

        … nunca a expressão “nem em sonhos” foi tão oportuna.

The KLF — Chill Out

        Gosto do facto de este álbum poder ser descrito sucintamente: é um álbum conceptual de house ambiente, cujo conceito é uma viagem de carro do Texas ao Luisiana, feito por dois londrinos que nunca tinham estado no Sul estado-unidense.
        Quanto à música em si, há sintetizadores a tocar acordes que parecem eternizar-se mas que fazem pitch bends subtis, pequenas melodias repetidas (como o lá-ré da segunda metade do álbum) que surgem periodicamente nas faixas mais longas; mas o papel da música é, mais do que proporcionar a viagem emocional que os KLF pretenderam representar, enquadrar a verdadeira substância do álbum: as samples.
    Chill Out é um tapete persa de retalhos: uma construção soberba a partir das samples, que criam uma imagem vívida, impressionista, da cor local, com transportes (campainhas de passagens de nível, comboios a passar, carros), natureza (cães, ovelhas, grilos, aves), comunicação (emissões de rádio avulsas: notícias, vendas por telefone, publicidade a um casino, um exaltadíssimo pregador negro), música (pedal steel guitar, o Elvis, os Fletwood Mac, cantores Tuva (!?)), e músicas de trabalhos anteriores dos KLF (memórias duma vida passada?). Estas últimas, ouvidas por si, descontextualizadas do ambiente deste álbum, soam-me apenas a house londrina suada do final dos anos 80, quando a cocaína ainda era o adjuvante de disfrute noturno preferencial, e acho-as datadas e pouco interessantes; é como parte da evocação aqui efetuada que se tornam sublimes.
    Este continua a ser um álbum noturno, mas que rejeita o ambiente sonora e fisicamente claustrofóbico duma discoteca. Os KLF fizeram um álbum de espaços abertos, onde o som nunca está comprimido ao máximo, como é costume na música eletrónica, que pretende ocupar toda a atenção do ouvinte, e há sempre espaço para ele respirar e permanecer, para se perceber tudo o que está presente ou não; fizeram um álbum sereno em vez de frenético, como o título indica, e, pelos nomes das músicas, explicitamente (e continuamente, porque não há pausas definidas entre elas, apesar de ser facilmente definível o fim de cada uma e o início da seguinte) narrativo. De certa forma — e aqui as pessoas de estudos culturais poderiam refletir à vontade — o seu apelo principal faz-se das suas referências externas e da maneira como as enquadra e processa, duma evocação em geral evidente do mundo real: ou seja, não é um objeto artístico cujo centro de referência esteja em si próprio, o que não deixa de ser invulgar na música.
        Chill Out é, por isso, um objeto único. Foi gravado em direto, com todas as notas e samples a terem de ser inseridas no momento. Há muita música que utiliza samples de forma semelhante a esta, mas para criar sensações ou sentimentos, nunca com este poder de construção e evocação da realidade (os The Orb são psicadélicos; os Godspeed You! Black Emperor pós-apocalípticos; os The Books ecléticos). Não é chill out como hoje entendemos a expressão, música de fundo estéril e anódina para gente sofisticada.
        Aqui, os KLF querem imergir-nos na realidade, não alhear-nos dela: os nomes das faixas referem-se a momentos na viagem representada: cidades ultrapassadas (Pulling Out of Ricardo and the Dusk is Falling Fast; 3 a.m. Somewhere out of Beaumont), referências ao que vai surgindo na rádio (Elvis on the Radio, Steel Guitar in my Soul; Rock Radio into the Nineties and Beyond), ou ocorrências triviais (Six Hours to Louisiana, Black Coffee Going Cold). Sentimo-nos imersos num Sul americano ideado, rural, pacato, pastoral; sentimos a estrada a viajar por debaixo de nós, monótona, enquanto apuramos o ouvido para detetar sinais de vida, quer eles nos venham da natureza, da rádio, da tecnologia que se move à nossa volta. Sentimo-nos pequenos face ao mundo; temos os olhos a fecharem-se e memórias passadas a invadir-nos. Quando esta noite acaba (Alone Again with the Dawn Coming Up), repetem-se os dois acordes que ouvimos ao princípio e que emolduram esta viagem. De certa forma, estamos no mesmo sítio, mas ficar-nos-á a noite que acabou.

Livros

Texto escrito quase de enfiada e com muito pouca edição, o que é raro para mim. A parte em que eu me queixo de não conseguir encontrar livros novos para ler pode ser remediada com as recomendações dos meus seletos leitores (seletos porque são dois ou três), portanto estai à vontade.

       Se tivesse de justificar, diria que é tem que ver com o facto de a massificação da cultura, e sobretudo da literatura, em Portugal ser relativamente recente (muito por causa do elevado analfabetismo das classes baixas durante o Estado Novo, e do paradigma – que parece voltar a estar na moda – de “pobres mas honrados” então vigente), e porque temos uma espécie de reverência bacoca pelo que nos parece culto e educado. Mas os livros em Portugal são uma bosta. Não falo do conteúdo, mas dos objetos em si, pouco conducentes ao desfrute imediato e próximo que um objeto como o livro deve permitir.
       São absurdamente grandes, tanto no formato como no comprimento, este último porque são impressos em papel espesso, com margens enormes, em tipos que primam mais pela estética do que pela legibilidade, e em letras tão largas que eu, que vejo bem, tenho de os segurar com os braços esticados ou começo a ter vertigens. Por causa disso, são tão volumosos que não dá jeito levá-los a lado nenhum, e tão pesados que não podem ser mantidos abertos só com uma mão sem que se comece a ter cãibras no abdutor curto do polegar (gosto dos nomes dos músculos).
       Também são absurdamente caros, e tem de ser por causa disto. Foi sobretudo para os comprar por metade do preço que me converti a ler os livros na versão original quando possível, em inglês, francês ou, ocasionalmente, castelhano (vá, foi um livro do Borges, e até era emprestado). E sim, haverá custos de tradução ou do raio que o parta; mas como explicar que um Saramago seja mais barato na edição francófona ou anglófona, e isto já depois de importado, do que no original? Isto faz algum sentido?
       Precisamos de mais livros baratos, leves, portáteis, em capas simples e papel banal, sem outras extravagâncias estéticas que uma ilustração absolutamente anódina num template gráfico universal de cada editora; os designers gráficos que se lixem. Os livros deviam custar seis euros (o preço aproximado dos livros de bolso da Leya, ou dos Livre de Poche e dos Pocket (é francês, rima com moquette)), não dezoito.
       (NB: isto só se aplica aos Livros Bons. Podem continuar a imprimir os do Rodrigues dos Santos ou do Peixoto (não tenho nada contra o Peixoto qua pessoa, com o seu ar de ex-metaleiro/punk simpático e meio pachola, tirando o facto de o que ele escreve ser supinamente enfadonho e banal. O José Luís Peixoto é o Tony Carreira da literatura, dixit A.C., in Bruxelas, Abril de 2013) como quiserem: as pessoas que os leem são ou desprovidas ou incapazes de terem respeito por si próprias, por isso não merecem semelhante consideração. Atenção! estou a brincar, não é isto que acho realmente, não me agridam. Haveria muito a dizer sobre o conceito de Livros Bons, assim como sobre o de Boa Música, mas isso é todo um domínio da filosofia, a Estética, e não só seria enfadonho estar aqui a discorrer sobre isso como percebo muito pouco do assunto; digo só que, sendo um Livro Bom capaz de nos marcar tão intensamente, de alterar tão profundamente a nossa maneira de vermos e agirmos face a nós mesmos e ao mundo, ao ponto da sua leitura se poder definir como um momento marcante na nossa vida, ler um livro… coiso é um ersatz tão medíocre e insatisfatório que, para além do conceito de “palavras impressas em papel encadernado”, os dois objetos têm muito pouco em comum)
       Um problema maior, sobretudo para quem, como eu, tem algumas dificuldades no ato de escolher, prende-se com a escolha dum livro para ler. Quem recebe a maior parte da sua informação sobre o mundo vinda da Web, que é predominantemente anglófona e, como tal, angolofono-cêntrica, acaba por ouvir falar mais de livros ingleses e americanos e por isso, inevitavelmente, a procurá-los mais; ainda não descobri cura para este problema. Pior: ganhei recentemente o hábito de sacar versões digitais (ilegais, natuurlijk) dos livros, lê-las, e depois decidir comprá-los ou não; evidentemente, só as obras com grande volume de circulação é que estão assim acessíveis, criando assim um enviesamento ainda maior para os autores americanos. Mas uma escolha é um ato de coragem, cuja dimensão depende das suas consequências; e se um livro de seis euros que não se achou fascinante pode ser dado a alguém e rapidamente esquecido, um de dezoito é uma decisão suficientemente importante para nos ficar a martelar a cabeça durante umas semanas, e um que não implicou mais do que uns minutos de google, uns links em sítios manhosos e um upload para o telemóvel pode ser tratado com uma casualidade muito libertadora, criando assim também uma separação entre os livros que lemos e aqueles dos quais gostamos, sendo estes os que queremos manter constantemente em edição física perto de nós, porque um dia podemos ter uma vontade súbita de recordar a angústia de Wallace a bordo do insuportavelmente luxuoso Nadir ou a de Kerouac alcoólico, acabado, no Big Sur.
       Dizem-me que só leio livros deprimentes: é verdade? Mas não é por eles serem deprimentes que gosto deles; acho a sucessão de suicídios n’As Horas ou em Norwegian Wood bastante melodramática e algo apalhaçada; nesses livros, gosto mais tanto dos momentos alegres (a descrição dum dia nova-iorquino, a extravagância da Midori) como dos melancólicos do que dos francamente tristes. Acho que me revoltaria subconscientemente contra um livro cuja Weltanschauung fosse firmemente otimista, porque ew, pessoas alegres, e tal – ou porque é mais fácil digerir o cinismo e a falta de esperança do que a ingenuidade e o otimismo? Argh, estou a dar-me dores de cabeça, e isto já ultrapassa o âmbito puramente literário. Não ajuda que a maioria dos livros alegres o sejam mais como tática comercial do que por convicção sincera, e que sejam por isso desprovidos de qualidade literária, capacidade de autocrítica ou profundidade intelectual.
       Descobri grande parte dos livros de que gostei através da coleção Mil Folhas, que o Público manteve entre 2002 e 2004 e que avós dos dois lados compraram com uma assiduidade variável. Foi em momentos aborrecidos nas casas deles que fui descobrindo Ficções,Crime e Castigo, A Trilogia de Nova Iorque, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Servidão Humana, Se uma Noite de Inverno um Viajante… Os meus amigos leem pouco; não partilhamos recomendações nem experiências livrescas; acaba por ser por acaso que chego a um livro novo, que cheguei àqueles que mantenho sempre em mente. E às vezes vale a pena espreitar livros em livrarias só pelo título, como no caso do A Supposedly Fun Thing I WIll Never Do Again.
       Mas vou tentar diversificar-me. Gostei do Afirma Pereira, do Tabucchi; hei de experimentar o Requiem dele. Adorei A Noite Roxa, do Urbano, mas, ao que sei, o grosso da obra dele foca-se menos em burgueses com Weltschmerz do que em camponeses alentejanos oprimidos; não sei se, por me identificar mais com aqueles do que com estes, o resto me interessará tanto. Divertiram-me as Nouvelles sous ecstasy do Beigbeder, mas achei o 99 francs intragável.
       JÁ SEI! Eu sou um Ted Mosby dos livros. Ando sempre à procura dum que me complete, que faça a minha existência valer a pena, e vivo permanentemente frustrado por não conseguir encontrar a minha alma gémea, transduzida em palavras em papel. Já a M., por exemplo, é um Barney: quer passar alguns momentos de prazer superficial e sem consequências, e escolhe um livro agradável mas unidimensional e descartável. O que me leva, algo tortuosamente, a outra preocupação: um dia, a editora dos livros da Nora Roberts vai ficar sem imagens que combinem uma mulher e flores num dado esquema de cores para usar nas capas dos livros dela, e aí o mercado editorial português colapsa.
       … Acho que isto derivou um bocado.