Livros

Texto escrito quase de enfiada e com muito pouca edição, o que é raro para mim. A parte em que eu me queixo de não conseguir encontrar livros novos para ler pode ser remediada com as recomendações dos meus seletos leitores (seletos porque são dois ou três), portanto estai à vontade.

       Se tivesse de justificar, diria que é tem que ver com o facto de a massificação da cultura, e sobretudo da literatura, em Portugal ser relativamente recente (muito por causa do elevado analfabetismo das classes baixas durante o Estado Novo, e do paradigma – que parece voltar a estar na moda – de “pobres mas honrados” então vigente), e porque temos uma espécie de reverência bacoca pelo que nos parece culto e educado. Mas os livros em Portugal são uma bosta. Não falo do conteúdo, mas dos objetos em si, pouco conducentes ao desfrute imediato e próximo que um objeto como o livro deve permitir.
       São absurdamente grandes, tanto no formato como no comprimento, este último porque são impressos em papel espesso, com margens enormes, em tipos que primam mais pela estética do que pela legibilidade, e em letras tão largas que eu, que vejo bem, tenho de os segurar com os braços esticados ou começo a ter vertigens. Por causa disso, são tão volumosos que não dá jeito levá-los a lado nenhum, e tão pesados que não podem ser mantidos abertos só com uma mão sem que se comece a ter cãibras no abdutor curto do polegar (gosto dos nomes dos músculos).
       Também são absurdamente caros, e tem de ser por causa disto. Foi sobretudo para os comprar por metade do preço que me converti a ler os livros na versão original quando possível, em inglês, francês ou, ocasionalmente, castelhano (vá, foi um livro do Borges, e até era emprestado). E sim, haverá custos de tradução ou do raio que o parta; mas como explicar que um Saramago seja mais barato na edição francófona ou anglófona, e isto já depois de importado, do que no original? Isto faz algum sentido?
       Precisamos de mais livros baratos, leves, portáteis, em capas simples e papel banal, sem outras extravagâncias estéticas que uma ilustração absolutamente anódina num template gráfico universal de cada editora; os designers gráficos que se lixem. Os livros deviam custar seis euros (o preço aproximado dos livros de bolso da Leya, ou dos Livre de Poche e dos Pocket (é francês, rima com moquette)), não dezoito.
       (NB: isto só se aplica aos Livros Bons. Podem continuar a imprimir os do Rodrigues dos Santos ou do Peixoto (não tenho nada contra o Peixoto qua pessoa, com o seu ar de ex-metaleiro/punk simpático e meio pachola, tirando o facto de o que ele escreve ser supinamente enfadonho e banal. O José Luís Peixoto é o Tony Carreira da literatura, dixit A.C., in Bruxelas, Abril de 2013) como quiserem: as pessoas que os leem são ou desprovidas ou incapazes de terem respeito por si próprias, por isso não merecem semelhante consideração. Atenção! estou a brincar, não é isto que acho realmente, não me agridam. Haveria muito a dizer sobre o conceito de Livros Bons, assim como sobre o de Boa Música, mas isso é todo um domínio da filosofia, a Estética, e não só seria enfadonho estar aqui a discorrer sobre isso como percebo muito pouco do assunto; digo só que, sendo um Livro Bom capaz de nos marcar tão intensamente, de alterar tão profundamente a nossa maneira de vermos e agirmos face a nós mesmos e ao mundo, ao ponto da sua leitura se poder definir como um momento marcante na nossa vida, ler um livro… coiso é um ersatz tão medíocre e insatisfatório que, para além do conceito de “palavras impressas em papel encadernado”, os dois objetos têm muito pouco em comum)
       Um problema maior, sobretudo para quem, como eu, tem algumas dificuldades no ato de escolher, prende-se com a escolha dum livro para ler. Quem recebe a maior parte da sua informação sobre o mundo vinda da Web, que é predominantemente anglófona e, como tal, angolofono-cêntrica, acaba por ouvir falar mais de livros ingleses e americanos e por isso, inevitavelmente, a procurá-los mais; ainda não descobri cura para este problema. Pior: ganhei recentemente o hábito de sacar versões digitais (ilegais, natuurlijk) dos livros, lê-las, e depois decidir comprá-los ou não; evidentemente, só as obras com grande volume de circulação é que estão assim acessíveis, criando assim um enviesamento ainda maior para os autores americanos. Mas uma escolha é um ato de coragem, cuja dimensão depende das suas consequências; e se um livro de seis euros que não se achou fascinante pode ser dado a alguém e rapidamente esquecido, um de dezoito é uma decisão suficientemente importante para nos ficar a martelar a cabeça durante umas semanas, e um que não implicou mais do que uns minutos de google, uns links em sítios manhosos e um upload para o telemóvel pode ser tratado com uma casualidade muito libertadora, criando assim também uma separação entre os livros que lemos e aqueles dos quais gostamos, sendo estes os que queremos manter constantemente em edição física perto de nós, porque um dia podemos ter uma vontade súbita de recordar a angústia de Wallace a bordo do insuportavelmente luxuoso Nadir ou a de Kerouac alcoólico, acabado, no Big Sur.
       Dizem-me que só leio livros deprimentes: é verdade? Mas não é por eles serem deprimentes que gosto deles; acho a sucessão de suicídios n’As Horas ou em Norwegian Wood bastante melodramática e algo apalhaçada; nesses livros, gosto mais tanto dos momentos alegres (a descrição dum dia nova-iorquino, a extravagância da Midori) como dos melancólicos do que dos francamente tristes. Acho que me revoltaria subconscientemente contra um livro cuja Weltanschauung fosse firmemente otimista, porque ew, pessoas alegres, e tal – ou porque é mais fácil digerir o cinismo e a falta de esperança do que a ingenuidade e o otimismo? Argh, estou a dar-me dores de cabeça, e isto já ultrapassa o âmbito puramente literário. Não ajuda que a maioria dos livros alegres o sejam mais como tática comercial do que por convicção sincera, e que sejam por isso desprovidos de qualidade literária, capacidade de autocrítica ou profundidade intelectual.
       Descobri grande parte dos livros de que gostei através da coleção Mil Folhas, que o Público manteve entre 2002 e 2004 e que avós dos dois lados compraram com uma assiduidade variável. Foi em momentos aborrecidos nas casas deles que fui descobrindo Ficções,Crime e Castigo, A Trilogia de Nova Iorque, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Servidão Humana, Se uma Noite de Inverno um Viajante… Os meus amigos leem pouco; não partilhamos recomendações nem experiências livrescas; acaba por ser por acaso que chego a um livro novo, que cheguei àqueles que mantenho sempre em mente. E às vezes vale a pena espreitar livros em livrarias só pelo título, como no caso do A Supposedly Fun Thing I WIll Never Do Again.
       Mas vou tentar diversificar-me. Gostei do Afirma Pereira, do Tabucchi; hei de experimentar o Requiem dele. Adorei A Noite Roxa, do Urbano, mas, ao que sei, o grosso da obra dele foca-se menos em burgueses com Weltschmerz do que em camponeses alentejanos oprimidos; não sei se, por me identificar mais com aqueles do que com estes, o resto me interessará tanto. Divertiram-me as Nouvelles sous ecstasy do Beigbeder, mas achei o 99 francs intragável.
       JÁ SEI! Eu sou um Ted Mosby dos livros. Ando sempre à procura dum que me complete, que faça a minha existência valer a pena, e vivo permanentemente frustrado por não conseguir encontrar a minha alma gémea, transduzida em palavras em papel. Já a M., por exemplo, é um Barney: quer passar alguns momentos de prazer superficial e sem consequências, e escolhe um livro agradável mas unidimensional e descartável. O que me leva, algo tortuosamente, a outra preocupação: um dia, a editora dos livros da Nora Roberts vai ficar sem imagens que combinem uma mulher e flores num dado esquema de cores para usar nas capas dos livros dela, e aí o mercado editorial português colapsa.
       … Acho que isto derivou um bocado.

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