Consultoria, viajar e emoções

        No dia em que fiz vinte e três anos, aceitei uma proposta duma empresa de consultoria de gestão para trabalhar lá, como analista, a começar dez meses depois. Foi o culminar dum processo de recrutamento que durou, ele próprio, oito meses (já tinha deixado de esperar que me contactassem para uma entrevista), que nunca cheguei a conceber ultrapassar, e isto para uma posição que nunca me teria ocorrido estar-me aberta não fossem eles ter-me convidado para um evento de recrutamento e que ainda me parece francamente absurda que eu vá desempenhar (vão contratar-me para tomar decisões!! eu! decisões!)
        Uma pergunta impunha-se imediatamente: o que fazer neste intervalo de tempo? Mesmo tendo em conta que tenho uma tese para acabar, sobram-me muitos meses — digamos sete — que seria estúpido, quase insultuoso para os que não têm esta oportunidade, não aproveitar o melhor possível, até porque depois há um ritmo de trabalho ao qual não estou de todo habituado, e que me vai deixar muito pouca disponibilidade para sequer considerar projetos de lazer que requeiram um compromisso temporal significativo.
        Há coisas a tratar até lá, evidentemente. Quero sair de casa; não me vejo a continuar aqui acontecendo uma mudança tão momentosa na minha vida, e sobretudo quereria um sítio donde pudesse ir a pé para o escritório: uma commute, fosse de bicicleta, transportes públicos ou carro, parece-me inviável, cada opção pelas suas razões. Também tenho de mudar de guarda-roupa: não só comprar um fato, camisas e gravatas para o emprego, mas abandonar duma vez por todas as t-shirts largas e coloridas com dizeres diversos e as restantes indumentárias de adolescente (pior, de adolescente sem sentido de estilo). Tão-pouco quero deixar de me preparar para a minha entrada lá; quando pedi sugestões nesse sentido a quem me apresentou a proposta, não estava a ser graxista mas sincero: quero ser, em termos profissionais, o meu melhor eu possível quando lá começar; vou ter de mostrar, tanto a eles como a mim próprio que não sou o idiota incapaz que… às vezes sou, sinceramente; quero deixar de ser esse idiota.
(às vezes, ponho-me a imaginar que, ao fim duns meses, eles vão não só despedir todas as quatro pessoas que me entrevistaram como alterar o seu mundialmente famoso e exigente processo de recrutamento, porque não é possível terem deixado dentrar um imbecil como eu)
        A sugestão que essa pessoa me deu foi, de forma um bocadinho retorcida (uma característica essencial dum consultor, evitar dar respostas excessivamente tersas e frontais — always hedge your bets!), uma resposta típica da nossa geração — ele é seis, sete anos mais velho —: viajar.
        Estou fucking farto de toda esta gente para quem viajar é uma espécie de panaceia. Tenho alergia a ver perfis no CouchSurfing por isto mesmo, e às vezes chega a apetecer-me bater naquelas pessoas mais extrovertidas e dinâmicas quando este tópico surge. (espero não deixar de ser convidado para eventos por causa disto).
        Para a maioria das pessoas, viajar é ver outros sítios; os verbos até costumam ser ditos um a seguir ao outro. Ora, ver é, por definição, uma atividade passiva (a não ser talvez no caso do voyeurismo, onde a pessoa observada pode agir: esconde-se, veste-se, chama a polícia. mas, supondo que nenhuma das pessoas que me aconselha ir viajar me esteja na verdade a instar a ir topar estrangeiras a fazer ioga ao natural nas suas salas de estar, vamos pôr este aspeto de parte). E, como tal, parece-me que a contemplação, passiva, de quadros, edifícios ou vistas não preclude uma presença física; por outras palavras, agora que uma pesquisa de imagens por ‘Torre Eiffel’ me devolve mais imagens do que aquelas que consigo processar — e, até, mais do que aquelas que eu presenciaria se fosse vê-la: variações climatéricas, ocasiões especiais — parece-me redundante dar-me ao trabalho de ir a Paris vê-la. Há, evidentemente, o aspeto da mediação tecnológica à qual me sujeito neste caso; mas quantas vezes não se sentem um bocadinho lerdos e têm a sensação de que a ligação entre vocês e o mundo não é imediata, mesmo quando só estão a andar na rua? De que estão a responder às pessoas automaticamente, sem estarem completamente aware (‘conscientes’ não serve tão bem) de que o estão a fazer? Será esta desconexão dissemelhante daquela que a mediação tecnológica impõe? Será uma experiência tão radicalmente diferente ver coisas ao vivo ou num ecrã de computador? Sou um grande fã do Street View do Google Maps; gosto de percorrer estradas por lá, de me imaginar nos sítios. Mas é só porque essa atividade exige de mim um compromisso tão pequeno que a consigo apreciar.
        Para mim, seja por ter dificuldade em adiar a gratificação (e por isso não conseguir fazer coisas para as quais não há uma recompensa a curto prazo) (este tema é fascinante; recomendo que se investigue, por exemplo, a experiência dos marshmallows, em Stanford) ou por o Matrix me ter marcado tanto, acho a ideia de purpose essencial. Acho importante saber o propósito das ações que tomo. Sim, eu era daquelas crianças que estavam sempre a perguntar “porquê?”/”para quê?”. Ora, sinto que viajar não tem um propósito definido, é aimless, e isso parece-me sempre desagradável. Há duas possíveis opções: dum lado, a sucessão de vv numa checklist, hoje queremos ver isto e mais aquilo e aqueloutro, andamos quilómetros de experiência passiva em experiência passiva até ficarmos com dores nos pés, e repetimos a dose no dia seguinte; do outro, a flãnerie indolente, vaguearmos pelos sítios a contemplar, como sói dizer-se, a cor local, o que é pouco melhor: aquilo que seria pointless, aborrecido, exasperante onde vivemos não passa a tornar-se uma vivência compensadora só pela mudança de cenário. Não acho nenhuma das duas opções prazerosa; falta-lhes um objetivo, algo mais tangível que se possa manter em mente e faça valer a pena o ato de viajar.
        Finalmente, acho que o que sinto em relação a viajar é que o essencial, que somos nós, não muda. Não é por mudarem a altura dos prédios, a cor das pessoas, a língua em que estão escritas as coisas que mudaram os nossos pensamentos, sentimentos e perspetivas. Para onde quer que o nosso corpo viaje, continuamos prisioneiros da nossa psique, e essa está sujeita a uma inércia muito maior e, para ser afetada, requer mais do que cenário.
        Posto isto tudo: a única ideia que tive até agora foi.. viajar. Pois, eu sei, e tal. Mas por razões específicas: acho que gostava muito de fazer as cyclosportives associadas às clássicas da Primavera, na Bélgica. Explico: na temporada ciclística internacional, há por volta de Abril uma série de provas de um dia, ditas ‘clássicas’, nesta região. São exemplos a Gent—Wevelgem, a Volta à Flandres, a Liège—Bastogne—Liège. Algumas delas têm, na véspera, uma prova semi-competitiva, tipicamente com vários percursos, um igual ao da corrida em si e outros encurtados, onde qualquer pessoa se pode inscrever. Como pessoa que aprecia pedalar e ver outras pessoas pedalar, apela-me a oportunidade de fazer os mesmos percursos destas corridas, andar num pelotão de amadores, percorrer as subidas que vejo na televisão. Seria também uma boa desculpa para finalmente comprar uma bicicleta em condições, que pudesse usar para pedalar cá; é altura de reformar a minha. Agrada-me, como conceito, a Specialized Secteur, mas talvez fosse preferível poupar preferindo antes uma Décathlon.
        Para além disto, não faço ideia. Sinto que, dum modo geral, tendo a gostar das coisas muito menos do que as outras pessoas, como se os meus sentimentos estivessem abafados, atingissem menores amplitudes do que nos outros. Vejo as outras pessoas a fazer bucket lists e a dizer que sonham em fazer um Ironman e ir a Veneza (NB: NÃO combinar estas atividades, por amor ao vosso sistema imunitário) e embora não possa dizer que não gostasse de fazer essas coisas não há nada que deseje o suficiente para que o tenha como objetivo de vida (ok, uma coisa: aprendi a tocar, na guitarra, o Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not quase todo).
        Não sei se por uma interiorização cultural de que o que é fixe é ser blasé e estóico e (no sentido moderno) cínico e por isso simplesmente ser mais fácil do que o oposto, se por a minha vida em geral ser uma espécie de vácuo emocional e eu me ter habituado a isso e tranformado isso na minha baseline; em todo o caso, há uns anos não era assim. De certa maneira, fiz um outsourcing das minhas emoções para a música: ouvir os meus álbuns preferidos é talvez a única maneira de tenho de desencadear em mim estados de espírito que não sejam “meh”. Tirando isso, vivo num “meh” permanente; uma abulia em que qualquer ação não-urgente é negligenciada e adiada até à sua inevitabilidade e em que o conceito de ‘lazer’ redunda no de ‘aborrecimento existencial’; não ajuda viver nesse “meh” quase permanentemente sozinho, dando assim azo à espiral de demência e imobilismo que já pareço ter adotado como intrínseca. Não sei se, como diria o G., tenho de descobrir como sair dele de forma a depois ter vontade de fazer coisas interessantes até Setembro do próximo ano, ou se, como sugeriria a D., tenho de me forçar a fazer essas coisas, queira ou não, para que se dissipe por si próprio o “meh”. Mas o tempo vai contando.

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