Valorize a cultura portuguesa, utilize formas fálicas

Ontem, descobri que, em Vila Real, era dia de dar o pito (aprecio a menção de que existem vídeos, como se a TSF nos dissesse “sabemos que a tua atividade preferida na rede é ver, como diria o Ricardo Araújo Pereira, ‘bom cinema caseiro’ com pessoas a dar o pito; o nosso site também tem disso!”). Isto culminou, para mim, num momento muito desconfortável: uma reportagem da SIC sobre um pasteleiro que estava a ensinar um grupo de crianças a fazer pitos. Sou eu que sou sensível ou isto é extremamente bizarro?
Pouco depois, descobri que, em Amarante, se celebrava São Gonçalo, um santo que afinal é só beato, que foi dominicano no século XIII e de quem se diz que é casamenteiro, facto que é comemorado pela confeção e exposição pública destes bolos. Aviso: os bolos são em forma de pilas. Pronto. Não quero que ninguém seja despedido por andar a ver bolos fálicos, mas por outro lado em Amarante isto é uma coisa popular e bem aceite, e a reportagem da SIC mostrava de facto um monte de velhos de ambos os géneros bem-dispostos e a rir-se com o facto de a sua cidade ser um showroom de pilas estaladiças e docinhas cujo objetivo é, relembro, evocar um monge.
Pensar-se-ia que toda esta depravação se limitava aos nortenhos (apesar de serem distritos diferentes, Amarante é mesmo ao lado de Vila Real) que, como no Inverno se viam com dias curtos e uma pluviosidade constante, que tornava esses meses uma espera deprimente por uma altura em que voltasse a ser possível sair para os campos, acabavam por desenvolver a badalhoquice inerente a longos períodos de isolamento. Mas, por outro lado, há no centro litoral uma vila conhecida pela produção cerâmica dum objeto decorativo específico.
Isto leva-me a concluir que, na verdade, a javardice popular portuguesa é uma marca cultural intrínseca ainda que algo perturbadora e que, nestes tempos onde o que importa é a diferenciação e o estabelecimento duma brand própria, deve ser alvo duma promoção que a valorize lá fora. Aquilo que verdadeiramente representa Portugal não é o fado, é o falo! A psique nacional portuguesa está verdadeiramente corporizada não em Amália Rodrigues, mas em Quim Barreiros. Eu ia dizer que se tornasse isto Património da Humanidade; os sempre ambiciosos amarantinos que dem início ao processo de candidatura.

PS: Por outro lado, não imagino os alentejanos, tradicionalmente pobres, estóicos, oprimidos, pouco devotos, a dedicarem-se a palermices destas. Nem, por razões diferentes, os ribatejanos: a região é conhecida por ser a terra dos cavalos, e adivinha-se que uma vida inteira de contacto com estes bichos não faça nada bem à auto-estima dum homem, ou de toda uma sociedade.

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