Duas observações e meia

Alain de Botton’s guide to art as therapy (e um vídeo)
        Acho que um dos problemas da apreciação da arte visual face à música é a efemeridade e o contexto em que o contacto ocorre. Um museu ou galeria, um sítio onde estás de pé, a tentar fazer valer o eventual preço da entrada, no meio de mais duzentas obras, e que pode eventualmente estar cheio/barulhento ou ser pouco hospitaleiro etc. não é nada conducente a refletir sobre a existência. Por outro lado, é verdade que nunca comprei um póster, nem sequer um postal, de uma obra da qual tivesse gostado; aliás, nem me ocorre assim de repente uma obra que me tenha marcado o suficiente para eu me lembrar dela. Além disso, como ele refere, o facto de toda a cultura à volta do consumo de arte se focar em aspetos históricos ou técnicos não ajuda nada a que surja um diálogo baseado no aspeto empático/contemplativo/reflexivo desse consumo.

Saramago – uma péssima escolha
        Gostei muito do Memorial do Convento, não sei se pelas razões referidas, ou se por elas mas inconscientemente; em retrospetiva, gosto do conceito de ter tido aulas de literatura, mas não sei se elas produziram em mim algum dos efeitos desejados. Ser obrigado a ler certos livros é bom, sobretudo quando se tem catorze anos e se não os leria de outra forma, mas não estimula um hábito de leitura que permaneça quando essa obrigação é retirada. Talvez se se permitisse a escolha entre vários livros do currículo, ou se o professor falasse da obra estudada de uma forma mais empolgante (se elæ gostar, pessoalmente, da obra, isto não deve ser difícil) em vez de percorrer uma checklist ministerial de tópicos a abordar, se criasse nos alunos a ideia de que ler livros é fixe. Ou talvez não: com aquela idade as pessoas tendem a ser bastante idiotas e indomáveis pelos esforços dos adultos em atenuar essa idiotice.

Kid Solves Two Rubik’s Cubes While Playing Guitar Hero
        Resolver um cubo de Rubik depressa e tocar canções difíceis no Guitar Hero não são tarefas fáceis isoladamente, muito menos em conjunto. Este rapaz deve ter praticado intensa e dedicadamente durante meses; adquiriu uma coordenação visual e motora incríveis, de forma a conseguir um feito francamente estúpido e inútil.
É exatamente esta a minha opinião sobre o Cirque du Soleil.
(isto tudo leva-me sempre a perguntar-me: porque é que as pessoas fazem coisas? será que têm, sequer, razões?)

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