It’s called a confidence game. Why?

Se não morrer de desidratação entretanto há de vir a polícia perseguir-me. Estou a conduzir numa das orbitais de Madrid. Não sei ao certo qual: parecem-me todas iguais, e todas igualmente deprimentes, mas trato como um fim em si o ato de conduzir. Depressa, obviamente.
Resigno-me a esta tentativa de sobrecarga sensorial/emocional, ersatz miserável da experiência da tua companhia.
É possível que antes de me apanharem eu acabe despedaçado, debaixo dum camião conduzido por um romeno que vem de direta há quarenta e três horas desde Cluj-Napoca, afogado em anfetaminas até às orelhas.

Ocorre-me que, como tudo aquilo que penso, esta ideia não é original, veio-me do filme Jeux d’enfants, que vi, e que viste. Dois idiotas petulantes e egoístas, absurdamente auto-absortos, impossíveis de contentar.
Falo das duas personagens do filme, obviamente.

Imagino-te, agora, sentada na estação comendo cerejas, procurando sensações nelas, mordendo-as uma a uma, duas a três, à mão-cheia; de sorriso perverso e amoral nos Lábios de onde vai escorrendo sumo vermelho vivo; de pés doridos, de costas voltadas para as vítimas que foste deixando pelo caminho.
Penso num gato a afastar-se, altivo, da andorinha que torturou e deixou moribunda.

“The greatest trick the devil ever pulled was convincing the world he didn’t exist”, dixit Keiser Söze; vi o filme, e pouco depois de nos termos encontrado pela primeira vez chamei-te retardada, e mesmo assim aqui estou a escrever isto e a pensar em ti.
Depois disto não há morte cinematográfica que me salve.

If you can’t spot the sucker in your first half hour at the table…

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