Aspetos éticos de projetos de analítica

 

Recentemente, uma discussão fez-me pensar no quanto o meu trabalho pode ser eticamente positivo ou negativo, o que me levou a tentar formular as suas implicações éticas, separando-as por tipo de projeto/modelo (contexto: o meu trabalho consiste em desenvolver modelos analíticos, normalmente preditivos da ocorrência de um determinado evento).
Mais do que o conteúdo em si, acho que é uma reflexão pertinente — mesmo que não nos leve a tomar nenhuma decisão, parece-me relevante que tenhamos presente qual pode ser o impacto no mundo da nossa atividade profissional (que, afinal de contas, é aquilo em que empregamos a maioria das nossas vidas).

  • Recomendação de produtos: recebes por mail/sms/telefone uma campanha promocional do teu banco para um empréstimo ou do teu operador de telecom para internet mais rápida. Pensas, “caraças, de facto dava-me mesmo jeito ter umas massas extra ou internet mais rápida”. Aceitas e contratas o empréstimo ou ativas a nova velocidade da internet. Em sentido estrito, é sem dúvida positivo para ti teres recebido essa campanha (se decidiste aceitar, é porque te traz utilidade); desde um ponto de vista mais lato, é discutível — se calhar se não recebesses a campanha não te endividavas tanto, ou não poderias fazer streaming de pornografia em HD com tanta qualidade que é mais apelativa do que sexo real e leva o teu casamento a deteriorar-se. Bom ou mau? (Assumindo que se não recebesses as campanhas promocionais destes produtos receberias campanhas de outros que não te interessam: não recebes mais mensagens, só melhores mensagens.)
  • Risco: vais tomar um seguro — automóvel, digamos. O agente pede-te uns dados e diz-te que por teres risco alto/baixo te vai cobrar um prémio alto/baixo. Pode ser bom — se és um condutor seguro não queres estar a pagar pelo risco de um condutor inseguro. Por outro lado, talvez o modelo diga que tens um risco altíssimo porque és um homem jovem com poucos anos de carta que vive na Amadora e tem um Ford Focus, e historicamente essa combinação seja terrível porque o Focus é  o carro preferido da malta jovem da Brandoa para fazer street racing no IC19. Mas se não houver condutores que paguem prémios mais altos, a seguradora também não pode baixar os prémios aos condutores seguros… Bom ou mau?
  • Otimização de manutenção: uma empresa de transmissão/distribuição elétrica quer poupar dinheiro no seu orçamento de manutenção, e por isso, em vez de enviar técnicos inspecionar todos os postes elétricos a cada 10 anos (ou seja, 1/10 dos postes é inspecionado cada ano), decide que vai aumentar a frequência de inspeção para os postes com mais risco de estarem deteriorados (por exemplo, são mais velhos ou estão numa zona onde chove mais) e aqueles onde uma falha teria consequências mais graves (por exemplo, se o poste cair toda uma cidade fica sem energia, ou esmaga vários carros que estão a passar na rua nessa altura), e reduzir a frequência de inspeção para os outros. Mesmo fazendo muitas menos inspeções, a empresa consegue diminuir as falhas no serviço. Por outro lado, muitos dos técnicos que tinha tornam-se redundantes e são despedidos. Bom ou mau? (Se a empresa for pública? Se for privada? Se for privada e o teu PPR estiver 40% investido em ações dela?)

 

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