Reflexões recentes

Uma ferramenta mental útil para pensar e decidir sobre comida é a fronteira de palatabilidade-saudabilidade. Essencialmente, uma comida tem de ser pelo menos suficientemente saborosa para compensar o quanto não é saudável.
Há varias comidas que ficam abaixo da fronteira, apresentando a relação inversa: fazem mal e sabem mal. Por exemplo: enquanto a fruta fresca, em geral, pontua solidamente no campo da palatabilidade (exceto no caso dos pêssegos amarelos que… enfim, não vamos voltar aí) e medianamente no da saudabilidade (pela quantidade não negligenciável de açúcar que contém), já o doce de fruta não só é uma via expresso para a diabetes como nem sequer sabe bem: é artificial, pastoso, enjoativo, desequilibrado. Falha em ambas as dimensões; é uma comida que não serve para nada: imprestável, irredimível, desnecessária.
(Visto de outra forma: a fruta domina estritamente o doce de fruta, porque lhe é superior nas duas dimensões consideradas.)
Outras comidas/bebidas que ficam aquém da fronteira: frutas cristalizadas (obviamente), passas de uva; pão de forma e pão industrial refinado em geral; refrigerantes (sobretudo Fanta, ugh), vermute, e bebidas doces em geral; maionese; bolachas digestivas.
Note-se que o resultado deste exercício será altamente personalizado: não só cada pessoa colocará cada alimento num ponto diferente do espaço de saudabilidade/palatabilidade em função das suas preferências, como a própria curva que delimita o espaço de alimentos aceitáveis variará consoante a preocupação de cada um com a saudabilidade e a palatabilidade em geral. Posto isto, creio que ter esta escolha presente pode ser sempre útil para apoiar a tomada de decisão e contribuir para uma alimentação mais saudável *e* mais satisfatória.

 

Estou em Lisboa há uma semana e já só me apetece fugir do apocalipse motorizado. De ter de evitar ou percorrer vias rápidas para chegar a qualquer lado, da solução que o Medina encontrou para acabar com o estacionamento ilegal (basta legalizar todo o estacionamento em todo o lado, sempre!) mas que obviamente não é nem nunca será suficiente, dos passeios exíguos e ainda assim cheios de carros e dos atravessamentos inexistentes ou inconvenientes, do ruído e cheiro constantes dos diesel. Sinto-me cansado e oprimido. Se não fossem a Born in the IPA da Musa e a Elsa do Celeiro prometo que nunca mais punha os pés a Oeste do Escorial.

 

Um trecho d’As Viagens de Gulliver refere que existem em Lilliput e Blefuscu duas fações, os big-endians e os little-endians, que defendem, respetivamente, que os ovos se devem partir pela extremidade mais larga ou pela mais estreita, e que por isso se opõem numa longa guerra sangrenta.
É uma sátira famosa do absurdo das guerras religiosas, mas acho que há um exemplo real ainda mais bizarro: muçulmanos e judeus. Uns obrigam os homens a deixar crescer a barba e mutilar o mangalho e as mulheres a tapar a cabeça; os outros obrigam os homens a deixar crescer a barba e mutilar o mangalho e as mulheres a rapar a cabeça. E, por isso, odeiam-se profundamente — por uma letra de diferença!

 

No Parque da Memória de Buenos Aires, por detrás do Aeroparque (de onde saíam os voos da morte, no tempo da ditadura argentina), há uma instalação artística que consiste numa série de cartazes enumerando as consequências dramáticas da ditadura. Começa com o expectável: tantos mortos, tantos desaparecidos, guerra das Malvinas. Mas, depois, surgem alguns cartazes menos óbvios: privatizações, redução de salários, financeirização da economia…
Quando lá estive, no início deste ano, aquilo desagradou-me. Achei que um lugar de memória pelas vítimas de uma ditadura devia evitar tomar estas posições, e que devia pertencer a todos os que não concordam com a prática de atirar pessoas de aviões, mesmo que achem que o Estado deva estar pouco presente na economia. Com a evolução da situação no Brasil, fui-me apercebendo de que na América Latina talvez o conjunto de pessoas que mantêm estas duas opiniões talvez não seja tão grande quanto isso; vendo as reações em Portugal ao que por lá se passa, começo a pensar que por cá talvez também não o seja…

 

Cada vez vejo mais “pessoas” a andar na rua com o telefone vagamente encostado à cara com a navegação por GPS ligada. Deprime-me sempre. Antigamente as massas néscias tinham pelo menos a decência de se entregar cegamente a demagogos carismáticos com ideias subversivas; hoje em dia basta-lhes uma voz feminina robótica que lhes sai do telefone. Agora, vire à esquerda. Agora. E eles viram. Fazem. Obedecem. Sem pensar, sem perceber, sem se interessar.

“Agora, vire-se contra o seu vizinho e denuncie-o à polícia política.”
“Daqui a trezentos metros, extermine toda uma aldeia de bósnios.”
“Siga a Alte Römerstraße durante um quilómetro até ao Konzentrationslager Dachau. Chegou ao seu destino.”

 

Se um dia acabar por ocorrer a famosa União Ibérica e se a nomenclatura do novo país seguir o modelo da da Tanzânia (TANganyika + ZANzibar + ‘ia’), experimentando diferentes combinações e ordenações de PORtugal e ESPaña ou CAStilla, as opções possíveis são Poréspia, Porcásia, Espória, ou Caspória.

 

(Em Lima)
Diz-se muito mal do jet lag, mas, para um misantropo asocial que aprecia silêncio, tranquilidade, e solidão, estar acordado para poder ir ao ginásio do hotel às 4h30 e chegar ao escritório antes das 7h é um prazer como poucos.

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