refazendo tudo

Haverá poucas culturas musicais mais ricas do que a brasileira, e descobri-la tem sido um dos prazeres da minha estadia aqui no Brasil. Isto apesar de os grandes nomes da música brasileira serem todos ou baianos ou cariocas ou um pouco das duas coisas; por paulistanismo, tenho ouvido sobretudo Rita Lee, mesmo que isso implique ter de me sujeitar à metáfora que mais detesto, a de “jardim” para designar genitália feminina, na canção Bem-Me-Quer (também tenho dificuldade com a Hairy Trees, dos Goldfrapp).
No entanto, ao ouvir os clássicos da MPB, não consigo deixar de sentir que o Brasil perdeu uma oportunidade quando, em 2003, Lula da Silva nomeou Gilberto Gil para Ministro da Cultura tout court, e não da Agricultura. Explico-me. Em 1975, na canção Refazenda, do álbum homónimo, GG já mostrava uma peculiar obsessão por abacateiros e abacates (“Abacateiro sabes ao que estou me referindo”, “Abacateiro serás meu parceiro solitário”, etc.). Não seria despiciendo imaginar que, tutelando a agricultura brasileira e podendo direcioná-la no sentido dos seus mais viscerais anelos, GG pudesse finalmente concretizar o seu putativo objetivo de abacatizar todo o país, quem sabe até lançando uma versão atualizada da música para celebrar o feito (proposta de verso: “Abacateiro tua ausência era um mistério mas ‘stando eu no ministério tu dominas o Brasil / Abacateiro dás a fruta mais cremosa e quem não a achar gostosa vá prá puta que o pariu“). Ora, nos anos 2010, o abacate popularizou-se pelo mundo ocidental (como o sushi uma década antes), conhecendo um crescimento da produção de 5% anuais e uma omnipresença memética. O Brasil, apesar da sua extensão e do clima adequado, é responsável por uns meros 3,5% da produção mundial (2017; dados FAO).
Fosse o país uma potência do abacate, e talvez os governos da esquerda tivessem resistido melhor à queda do preço do petróleo, e talvez a influência política da soja e do gado se visse marginalizada pela do lóbi do abacate, e talvez hoje o panorama político brasileiro fosse substancialmente menos deprimente.

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