todo um mundo de colinas por descobrir

Uma das coisas que mais me irrita é a ideia, ou o meme, de que “Lisboa tem 7 colinas”, ou, pior, “Lisboa é a cidade das 7 colinas”.

Não só pelas razões intrínsecas – por ter sido um “facto” inventado por um frade do século XVII, mais para estabelecer um paralelismo com Roma do que por qualquer razão substantiva, ou por as delimitações das colinas serem arbitrárias e terem que pouco ver com a topografia real da cidade já na altura (e certamente não atualmente), ou com a sua perceção. Nem mesmo por ser um “argumento” inevitavelmente aduzido contra o uso da bicicleta em Lisboa, como se as nossas deslocações nos anos 2010 tivessem muito que ver com a geografia da cidade de há quatrocentos anos…

É mais do que isso: é que este é um “facto” que, em vez de proporcionar conhecimento sobre a coisa a que se refere (Lisboa), substitui essa coisa por uma versão ersatz, simplificada, memificada. Nenhuma das pessoas que o repete sabe quais são essas colinas, ou tem interesse em descobri-las, ou sequer tem representações mentais delas que através das quais perceba Lisboa. É um “facto” que não esclarece; é anti-informação.

Mesmo restingindo-nos apenas à sua geografía física, Lisboa é, e foi, um ror de colinas, vales, planícies, encostas, penedos; cais, praias, ribeiras; quintas e arrabaldes. Várias coisas ao longo dos séculos, várias coisas para diferentes pessoas. Reduzir tudo isto às “sete colinas” de um frade seiscentista é contentar-se com uma versão tão miserável de algo tão fascinante.

A realidade é surpreendentemente detalhada. É compreensível a tentação de a simplificar, de a fazer caber em representações toscas; estas simplificações parecem ter para a maioria das pessoas um apelo instintivo, ou, dito de outra forma, um maior alcance memético. Mas é possível ter a reação oposta: admirar e respeitar a complexidade da realidade, achando que é precisamente essa complexidade que a torna rica e interessante. E, reparo que, em geral, as pessoas em quem vejo esta reação são as que eu também admiro e respeito.

Acho que as minhas reflexões anteriores anti-países e anti-metáforas apontavam numa direção semelhante. Rejeitemos a tosquice conceptual; deleitemo-nos na complexidade do mundo!

3 thoughts on “todo um mundo de colinas por descobrir

  1. Não concordo que o conhecimento do facto “diz-se que Lisboa tem sete colinas” contribua somente para simplificar/imbecilizar. Aliás, penso o contrário, e penso que os defensores da complexidade do mundo podem estar satisfeitos com a existência deste e outros mitos.

    Já contei a história das 7 colinas a vários estrangeiros que i) aprenderam e acharam curioso a cidade ter colinas (muita gente sempre viveu em cidades praticamente planas); ii) sorriram ao ver mais uma referência ao número 7 e por conseguinte à heranca judaico-cristã; iii) quando finalmente vieram a Lisboa ficaram satisfeitos por terem conseguido observar algumas das colinas e foram procurar em mapas e na internet quais seriam.

    Claro que “saber” uma informação é muito insuficiente se procuramos uma visão crítica e exigente da realidade. Isso é valido para a história das 7 colinas como para o facto de o Rossio se chamar Rossio. Depende de cada um usar a informação, questionar, duvidar.

    Concluo insistindo que esta história em particular contribui para exercício mental: é quase um slogan portanto simples de memorizar, e de usar como referência para enriquecer uma conversa, e de naturalmente inquietar os curiosos que quererão saber quais são as colinas, e de estimular uma discussão entre os que estão sempre insatisfeitos com a falta de complexidade!

    (ironicamente, este texto pouco ensina de concreto sobre Lisboa, tirando o facto de haver algumas pessoas que dizem que tem sete colinas ;-)  

    • Obrigado por comentares, achei muito interessante e fizeste-me, pelo menos, matizar a minha opinião.
      Confesso que nunca tinha imaginado que a história das 7 colinas pudesse alguma vez gerar interações produtivas, ou o efeito de procurar mais sobre o assunto e isso estimular alguma descoberta. Embora continue a manter que isso quase nunca vá ser o caso, e que haverá de qualquer forma maneiras menos artificiais e mais… epistemologicamente robustas de despertar esse interesse.
      Mas talvez para uma pequena minoria de pessoas isto seja um factóide tolo mas inofensivo e reconhecido como tal, e um ponto de partida como qualquer outro para explorações posteriores.
      (e talvez tu sejas uma destas pessoas e possas partilhar as tuas explorações geográficas e não só, independentemente daquilo que as tenha motivado :-)

  2. Pingback: tips for Lisboa | Confissões de um gajo possuído

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