plágio trágico-pelágico

Não é esquisito que o livro Sostiene Pereira, de Antonio Tabucchi, seja essencialmente o mesmo livro que O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago? As personagens (Pereira e Ricardo Reis) são idênticas: mesma idade; solidão, passividade, atitude de lassidão e desprendimento perante o mundo. O momento histórico e contexto político é o mesmo (anos 30, inícios do Estado Novo), e a interação dos personagens com ele também (interesse sociológico e desprendido, quase-aceitação resignada, conflito tímido).

Mas.. isto pode-se? Escrever um livro que é igual a outro livro? Não legalmente; para isso são suficientemente diferentes. Mas.. logicamente? socialmente? Pode-se? Não deveria gerar o mesmo tipo de incómodo social que quando um tipo numa festa nos conta uma história que sabemos que aconteceu a outra pessoa? ou afirma com confiança factos que sabemos estarem errados? Um daqueles momentos em que não sabemos se dizer algo ou ficar a remoer o desconforto? Em que ficamos com dúvidas sobre se estamos a viver na realidade ou num filme do Ruben Östlund?

(Ou ninguém liga? Pode-se copiar, desde que a cópia seja suficientemente boa? Como as canções Ouro de Tolo, de Raul Seixas, e Let Forever Be, dos Chemical Brothers (que são iguais respetivamente às canções Sentado à Beira do Caminho, de Erasmo Carlos, e Tomorrow Never Knows, dos Beatles)?)

O estilo é diferente, suponho. O final, também — mas, como já expus anteriormente, o final d’O Ano da Morte é por sua vez parecido ao da peça En Attendant Godot, de Samuel Beckett. É este o limite do Tabucchi? Não copiar algo que já seja uma cópia? Por medo a gerar regressões infinitas, talvez? Ou ele estava a chegar ao fim do livro e pensou “cazzo, isto assim dá muita cana, vou mudar aqui qualquer coisa para isto se notar menos”?

Sei que há uma objeção óbvia a este meu argumento. “E o fantasma do Fernando Pessoa? É uma personagem central d’O Ano da Morte, mas não entra no Sostiene Pereira, idiota. Isto não é suficiente para diferenciar as obras? A ausência de um personagem tão importante e memorável?” Certo. Mas o fantasma do Fernando Pessoa entra no Requiem, outro livro do Antonio Tabucchi! Vão ao cemitério dos Prazeres falar com ele! Como o Ricardo Reis! A sério! Que ideia inovadora, esta: dividir o plágio de uma obra por dois livros diferentes, para ser mais discreto.

Por falar nisso, ou não: não percam os meus próximos dois livros. Um é sobre um homem perseguido pela Inquisição que vai trabalhar nas obras do Aqueduto das Águas Livres. Outro é sobre outra coisa, mas mete o padre Bartolomeu de Gusmão e o compositor Domenico Scarlatti. Tudo ideias originais, claro. (Enfim, tecnicamente, mete no padre. Ups, spoiler!)

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