locais — esquina da Bica

Quem descer pela Bica Pequena acompanhando o percurso do Ascensor — mas precavendo o risco de uma escorregadela altamente consequente (dada a inclinação) preferindo tomar os degraus laterais — chega a um ponto em que deixa de poder seguir em frente, já que a calçada termina na estação do mesmo e deixa de ter serventia pública. É o Largo de Santo Antoninho. Se virar à esquerda para a Travessa da Bica Grande e logo à direita para a Calçada homónima, poderá descer o troço final dessa longa escadaria, tentando distinguir o ronronar subterrâneo do cabo do Ascensor que circula paralelo a menos de meia dúzia de metros.

Chegando à Rua de São Paulo, pode ver, se olhar para cima e para a esquerda, uma estátua do santo (o franciscano lisboeta, não o apóstolo epistolar — por enquanto), num bonito nicho com decorações de estilo neomanuelino. Outro aspeto desta esquina merece um reparo: um discreto chanfro (na gravura, olhe-se para baixo a partir do nicho vazio) na pedra recorta a esquina do edifício, desde o solo até à altura de uma pessoa. Talvez se possa imaginar que tenha uma função dupla: serve o passante apressado, ajudando-o a otimizar impercetivelmente a dobra da esquina (permitindo-lhe poupar energias para a subida vindoura?); serve o flâneur, capturando-lhe a atenção e dirigindo-lhe o olhar para cima, permitindo-lhe assim reparar na estátua que talvez lhe tivesse escapado.

Neste ponto, quem tiver feito o citado percurso estará sob dois efeitos complementares, um mecânico-circulatório e outro estético-exaltatório. Por um lado, como se sabe, a descida de uma longa escadaria, com o esforço exigido aos quadríceps para a absorção do peso do corpo nas passadas, resulta numa movimentação de sangue até aos membros inferiores que, não raramente, tem o efeito secundário de irrigar e invigorar as partes pudendas. Junte-se a isso os sentimentos que podem provocar a descoberta e contemplação do chanfro e da estátua — surpresa, satisfação estética, gratidão por poder apreciar o resultado do esforço longínquo de escultores e operários esquecidos, anseio pela pertença e união que o Santo e o Menino demonstram um pelo outro — e torna-se quase inevitável que, se se tratar de um casal quem chegue até aqui, os seus membros sintam um pelo outro um desejo que idealmente se sublimaria numa união transcendente e incorpórea mas para o qual um roçanço rápido mas frenético pode servir perfeitamente dadas as circunstâncias.

Incrivelmente, este mesmo prédio, qual Gesamtkunstwerk arquitetónico, oferece resposta aos impulsos para os quais contribuiu. A primeira porta após contornar a esquina — o nº 216 da Rua de São Paulo — encontra-se quase sempre aberta, proporcionando ao casal um espaço conveniente e apelativo (penumbroso, raramente frequentado, mas com barulho de carros e elétricos e turistas a reforçar constantemente a excitação da ilicitude) para satisfazer os seus desejos, e distraí-los pelo menos o suficiente para que possam continuar com os seus passeios.

Se assim fizerem, podem prosseguir pela Rua de São Paulo umas centenas de metros até chegar ao Largo do mesmo nome. É natural que se queiram ater a contemplar a respetiva Igreja, reconstruída após o terramoto de 1755, de cuja fachada diz a Câmara Municipal de Lisboa que é rasgada por “três portais (…): o central, de maiores dimensões, é rematado por frontão curvo quebrado em cujo tímpano se inscreve um medalhão escultórico tendo por tema ‘A Conversão de S. Paulo’, enquanto que os laterais encontram-se sobrepujados por áticas curvas encimadas por nichos que acolhem as estátuas pétreas de S. Pedro e de S. Paulo”. No entanto, o Largo, amplo e luminoso, não está desprovido de relevância turística, já que — recorde-se — é uma das localizações lisboetas onde foi filmado o videoclipe da música Boiler, dos Limp Bizkit; é aqui que o Fred Durst vai a uma rulote chamada “Bolacha Mole” para comer um hambúrguer mas o hambúrguer tem vermes dentro.

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