Coesão inconseguida

Há duas músicas na minha coleção digital que se adequam a este momento: Sábado de Sol, dos Mamonas Assassinas, e Hey Saturday Sun, dos Boards of Canada. É Sábado à tarde. Estou só, em casa. A loiça do almoço lavada; os restos já encaixinhados a arrefecer. Já poderão ir para o frigorífico? Os gatos dormem, um no pufe atrás de mim e a outra na cadeira ao meu lado. Os aviões vão aterrando regularmente, de Sul para Norte; vejo-lhes toda a descida suave e altiva, até que desaparecem por entre os prédios, de onde espreita a cauda do próximo a levantar. Quando o vento troca, é pelo ligeiro estremecer que o esforço dos motores provoca na caixilharia das janelas cá de casa que anunciam a sua presença, e às vezes quando levanto os olhos para os ver já desapareceram por entre as nuvens. Há pouco trânsito nas ruas; o mundo lá fora parece imóvel. Se não fizer nada, o dia escoar-se-á impercetivelmente. Como tantos outros.
Who has never killed an hour? Not casually or without thought, but carefully: a premeditated murder of minutes. The violence comes from a combination of giving up, not caring, and a resignation that getting past it is all you can hope to accomplish. So you kill the hour. You do not work, you do not read, you do not daydream. If you sleep it is not because you need to sleep. And when at last it is over, there is no evidence, no weapon, no blood, and no body. The only clue might be the shadows beneath your eyes or terribly thin line near the corner of your mouth indicating something has been suffered, that in the privacy of your life you have lost something and the loss is too empty to share.
Nem sou corajoso ao ponto de assassinar premeditada e deliberada e requintadamente as minhas horas.

O T. e a C. estão cá; é a primeira vez que o vejo desde há sete meses. Temos uma tarde interessante e preenchida, em que vamos primeiro à LxFactory ver a Ler Devagar e o que mais há por lá e depois a Algés ver o Centro Champalimaud e depois a Campo de Ourique ver os novos espaços de restauração do mercado e comer (eles) o suposto melhor bolo de chocolate do mundo e depois ao Chiado a um bar pitoresco e finalmente jantar no vegetariano da Calçada do Sacramento antes de irmos à arrecadação de casa dele buscar umas coisas de que não me lembro o que eram porque estava espantado com a dimensão da coleção de cartas Pokémon e Harry Potter e Dragon Ball e afins que lá encontrara numa caixa de plástico. Foi tudo muito menos frenético do que a sintaxe e o comprimento da frase anterior parecem sugerir. No livro The Game, uma técnica do Mystery para simular intimidade é relocalizar o encontro várias vezes: a ideia é que estar com uma pessoa em diversos cenários dê a sensação de que a conhecemos há mais do que meras horas. E, nem de propósito, li recentemente no blogue da J. que “All the days that you spend in the same physical places doing the same thing will blend in your memory”; posto isto, a referência bibliográfica apropriada é sem dúvida o Pela Estrada Fora, de que essa tarde foi uma versão condensada/lisboeta/burguesa, com bolo de chocolate e música lounge em vez de erva e jazz e o Citroën C3 Picasso do T. em vez do Hudson do N.[eal Cassady].
Só faço coisas destas com o T. – apesar de que, claro, nada isto teria acontecido se cá não estivesse também a C.; não me estou a ver a mim e ao T. a passear à beira-rio em Algés. Será que o T. está no Pela Estrada Fora e os meus restantes amigos já vivem no Big Sur? Será que eu preciso de conhecer a minha Tristessa ou de passar uma temporada a fazer de Desolation Angel? Isto está aqui uma sofisticação literária do caralho. Fica o aviso: se o T. alguma vez vos der um conselho javardo, é atirarem-se de cabeça para onde ele vos mandar. (mas qual cabeça? HEH HEH HEH. pronto, já se foi a sofisticação toda. assim está bem melhor)

Se a empresa que detém o WordPress nunca falir (ocorrência cuja probabilidade está fortemente ligada à continuação da sua disponibilidade para subsidiar passeatas intercontinentais aos seus funcionários, mas isso é outra história) será que estarei a ler isto daqui a umas décadas quando quiser descobrir quem fui? Alguém relê os seus arquivos de chat? Se sim, consegue fazê-lo sem ter um acesso de (Selbst-)Fremdscham pelo seu eu passado, de amargura e tristeza por tudo o que em si morreu desde então? Isto tem nome? Alguém, daqui a umas décadas, coligirá os arquivos de chat das pessoas brilhantes e inspiradoras que têm agora a minha idade, como se fez ao longo da história com as cartas de escritores e líderes? Se a Heloísa e o Abelardo tivessem comunicado via Facebook, alguém leria as merdas que dali saíssem? Pelo menos o Abelardo, embora malgré lui, teria evitado uma grande fonte de distração cibernética. E se S. Paulo tivesse enviado tuítes aos Coríntios e Efesos? Os comprimentos dum tuíte e dum versículo bíblico não são muito diferentes. Preocupar-se demasiadamente com a maneira como o nosso eu futuro olhará para e se lembrará de nós será contra-producente, por nos impedir de fazer as coisas que o fariam apreciar-nos? Devia estar a pedalar na minha bicicleta nova, em vez de escrever estes disparates? O que fariam a J.? e a A.? e a D.? Isso importa? Aprender HTML? Photoshop? Alemão? Tenho a mente confusa; if I am by myself for like a week, I get weird. Agora é Quinta e é de noite; o gato não está no pufe mas no sofá, os aviões continuam a aterrar regularmente mas já não os consigo identificar. Analysis-Paralysis. Vou ouvir Set Fire to Flames e ler House of Leaves.

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