O que fica do que passa?

No final deste texto há uma pequena adivinha para o leitor  sim, este blogue é agora interativo!

 

Em 2006±1, o Marcos e eu éramos grandes amigos.

 

Uma vez, o Marcos veio passar um meio-fim-de-semana a casa dos meus avós, no Montijo. Na Sexta à noite, ficámos até tardíssimo a escrever um trabalho de francês (sobre Baudelaire vs. Hugo e l’art pour l’art?); no Sábado, fizemos uma bizarra receita russa de frango com especiarias, vodca, iogurte e feijões verdes (que desfiámos na cozinha, com a minha avó), e depois fomos com o meu avô a um bar de praia no Samouco.

 

Uma vez, numa manhã de férias escolares, invadi a casa do Marcos (mentira, fomos otimamente recebidos pela mãe dele), com o Miguel, a Leonor, a Emi, um cachecol do Benfica, uma camisa de alças branca comprada nos ciganos da Praça de Espanha, e um pacote de seis cervejas. Filmámos O Amendoim, um filme onde o Marcos desempenha maravilhosamente o papel de um homem a ver futebol, beber cerveja, gritar com a televisão e com a mulher, e ser auralmente penetrado pelo fruto seco epónimo, a partir de um guião escrito por mim — a adaptação cinematográfica duma piada javarda que é das melhores coisas que fiz até hoje.
(Não tenho uma noção forte da minha própria continuidade temporal, portanto isto não é imodéstia.)
Quando revejo o filme, já raramente, continua a oferecer-me cinco minutos de hilaridade incessante.
(A réplica “É só pretos, checoslovacos e brasileiros…”, em particular.)
(Escrevi-a, claro, pela comicidade da referência anacrónica à Checoslováquia, país que, na altura, já não existia há treze anos. Há uns tempos  ou seja, doze anos depois  passo por dois homens nos seus quarentas a admirar um carro estacionado. Um deles inspeciona-lhe a matrícula e exclama “Ah, ‘CZ’ é checoslovaco!”)

 

Uma vez, eu e o Marcos passámos a Sexta à noite e o Sábado em casa da avó dele. Fizemos borscht (o nosso objetivo era mijar vermelho), filmámo-nos a pôr preservativos na cabeça e enchê-los com o nariz até rebentarem, comemos farinha, filmámo-nos a pegar fogo a batatas que dialogavam sobre teologia e teodiceia. Enfim, tudo aquilo que nos sugeriam o aborrecimento, a não-ubiquidade da internet móvel, e as doses sobejantes de inteligência, criatividade, e parvoíce de que dispúnhamos.

 

Um preservativo inchado com dezenas de litros de ar expelidos pelas possantes narinas de um campeão nacional de remo (NB: o Marcos) explode em múltiplos pedaços que se tenderão a espalhar num raio de vários metros à volta.
Quando uma avó descobre restos de preservativos em casa, no dia seguinte ao neto ter convidado um amigo para ir lá dormir, desconfia do que possa lá ter acontecido nessa noite.
É provável que fale com a filha (NB: a mãe do Marcos). É provável que se gere uma discussão familiar a três, altamente desconfortável para todos os envolvidos. É provável que a justificação “estivemos a enfiar os preservativos na cabeça” não seja facilmente aceite. É improvável – embora possível e hilariante – que a resposta a essa justificação seja “Qual cabeça, Marcos?”.
(A exibição de prova videográfica da utilização não-sexual dada aos preservativos viria a tranquilizar as progenitoras preocupadas.)

 

Nesse período, estudámos juntos para exames; vagueámos pelos corredores das Amoreiras. Corremos por Lisboa a noite inteira: Marquês de Pombal – Campo Grande –  Parque das Nações – Santa Apolónia – Alcântara. Várias outras vezes, fui a casa do Marcos e cruzei-me com a mãe dele.

 

Nos dez anos seguintes, quase deixámos de nos ver. Ele afastou-se do nosso grupo para se dedicar aos estudos, à namorada, a outros projetos, ao trabalho. Tudo o que ia sabendo dele eram factos soltos, desligados dele. A irmã dele tinha tido um filho. Ele tinha ido viver com a namorada. Estava agora a trabalhar numa empresa; agora, noutra. Tinha adotado uma dieta só de carne e gorduras. Tinha emagrecido, estava quase irreconhecível.

Ainda assim, entretanto, em 2010, fomos juntos de bicicleta de Lisboa à serra da Estrela. Não sei se essa viagem o marcou tanto como a mim, mas continua a ser das experiências que guardo com mais carinho, e tenho memórias mais ricas e detalhadas desses quatro dias do que de anos inteiros. E a principal imagem que tenho dela é a foto que tirámos no alto da Torre (OPÁ!), a levantar as bicicletas, satisfeitos pelo objetivo cumprido; e é por entre a roda da bicicleta do Marcos que o sol laranja acabado de nascer brilha timidamente sobre o ponto mais alto de Portugal.

 

E, se não vi o Marcos, ainda menos a mãe dele.

Até Julho de 2017; até ao casamento dele. Estou, tanto quanto posso estar, feliz: revejo o meu antigo amigo, participo num dos momentos mais importantes da vida dele.

Vejo a mãe dele, vou cumprimentá-la.

 

ADIVINHA: de uma amizade forte de vários anos, de todos os momentos que vivemos juntos e que descrevi acima, qual foi A memória que a mãe do Marcos guardou de mim?

1 thought on “O que fica do que passa?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s