cerveja, comida

A comida não me interessa. Está limitada nas suas potencialidades pela incapacidade de transcender a sua materialidade. Um orégão não deixa de saber a orégão, por muito que saiba a orégão. Prefiro a cerveja, que pode conter evocações de uma infinidade de sabores, independentemente das limitações da sua própria ontologia — água, cevada malteada, levedura e lúpulo… Prefiro Baudelaire a Caeiro. Bebendo cervejas, já caí de cara numa turfeira, já rilhei meia dúzia de pinheiros e foiceei à dentada um campo de gerânios, já snifei voluptuosamente ameixas secas e maçãs assadas e cascas de tangerina e pêlo de cavalo. Gostava de ser para o mundo o que a cerveja é para mim — uma forma de escapar à cansativa banalidade do real…

(A comida representa para mim três outros aspetos que considero repugnantes, nomeadamente (i) a supremacia do hedonismo, particularmente quando implica a subordinação da ética, (ii) a disformidade e degradação do corpo, (iii) uma relação com o mundo baseada, literalmente, no consumo, i.é na eliminação do outro para tornar maior o eu ― cf. a personagem Norman Bombardini de The Broom of the System…)

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