Straighten the rudder

Acho que passei mais tempo a tentar por as notas de rodapé com html do que a escrever este texto originalmente. Lá consegui; sinto que html, a este nível, é uma skill tão trivial e tão fundamental para tudo o que envolva “publicar coisas na web” que já a devia ter; mas por outro lado a este mesmo nível torna-se tão trivial que não tem grande valor…
 

Straighten the rudder girl and sail me upstairs
And go and find somebody who cares
Well we might not be the perfect partners
But tonight we make a pair

    Numa madrugada de Agosto de 2012, estava o T. a dormir no meu sofá e eu ao lado dele, acordado, a ver a repetição da etapa da Volta a Portugal do dia anterior (subida à Torre por Seia, Blanco a conquistar a amarela); tinha ficado encarregue de o manter em estado de apanhar, ao amanhecer, a camioneta para Nice, trinta horas para visitar uma rapariga que tinha conhecido umas semanas antes, na Irlanda. Quando voltou, quinze dias depois e apaixonado, falou-me de duas francesas que tinha conhecido na viagem: estudantes de arquitetura lionesas usando a Eurolines para evitar a tirania das companhias de aviação em relação ao peso das bagagens – que limites de vinte quilos não se compadecem com um ano de Erasmus – e com quem, se tivesse sido ao contrário, eu provavelmente não teria chegado a trocar uma palavra da Côte d’Azur a Sete Rios. Eu viria a conhecê-las numa tarde de Setembro, no apartamento que partilhavam na Rua de São Paulo, num prédio que, do primeiro andar para cima, tinha cinco andares de escadas escuras e a cheirar a mofo e, algo surrealmente, sem portas [1], até se chegar à delas, que dava para um apartamento apertado mas com vista para o estuário do Tejo [2].Eram atraentes, tanto a S., solar, sanguínea, de vestido leve e sorriso permanente, como a P., lunar, melancólica [3], baixa, com uma sombra por cima do lábio superior e meia dúzia de pelos sob os braços; ficámos lá algum tempo na cozinha delas a beber cerveja e conversar e ver a vista [4].

 

Sweat, baby, sweat, baby, sex is a Texas drought

    Até Julho de 2013, sempre associara o calor, o calor dos dias de mais de quarenta centígrados, e ainda trinta e muitos depois das oito da noite, a um dia de dois mil e onze, em que, ao pedalar por Lisboa [5], me lembro de passar para uma zona onde o alcatrão era mais escuro – talvez mais recente – e inspirar fundo ao mesmo tempo, e de sentir que o ar subitamente sobreaquecido me queimava o interior das narinas: uma dor aguda e inesperada, mas uma dor boa porque proveniente do meu esforço.
    Agora, és tu que te me afiguras na minha memória dos dias quentes. Estar uma noite, deitado no chão do quarto, com uma ventoinha no máximo apontada à cara e a ouvir o Getz/Gilberto, a enviar-te uma mensagem a combinar encontrarmo-nos no dia seguinte. Nesse dia, ir ter contigo ao Chiado e deixar uma poça de suor no chão da Sportzone enquanto te ajudava a escolher uma mochila. E, logo depois, irmos para o teu quarto e passarmos lá a tarde e a noite, com um jarro de água que íamos esvaziando de hora a hora. Tu a despejares-me água em cima; eu a cuspir-te água para cima. Suarmos um contra o outro e deixarmos os lençóis alagados; acordarmos de manhã com as nossas silhuetas manchadas neles a sal [6].

 

Then like a butler pushing on a bookshelf
I’m unveiling the unexpected

    A casa era tua; se fosse doutra pessoa estaria eu agora a escrever este texto sobre ela? Ou ele? Parece-me absurdo, claro; mas o que se passou parece-me igualmente arbitrário. Incomoda-me e confunde-me a arbitrariedade. Se não estivesse bêbedo aquilo tinha acontecido? Sobretudo: se, em situações semelhantes com outras pessoas, eu estivesse bêbedo, teria algo de semelhante acontecido? Angustia-me profundamente a ideia das possibilidades de que posso nunca me ter apercebido.
    Para variar, não foi o caso, mas, sinceramente, não faço ideia porquê. Fui-me deixando ficar, simplesmente; os outros foram-se indo embora, sozinhos ou em grupos, fosse for terem obrigações, sono ou a sensação de que tu quererias que o serão se acabasse e que fosses deixada em casa, sozinha, tranquila.

    Há sempre um conjunto de coisas que vou fazendo quando me aborrece o grupo de pessoas presente num serão. Vou pôr música e comporto-me como um pequeno ditador demente que só tolera as suas próprias escolhas. Proponho-me para lavar a loiça do jantar, e faço-o com um afinco, uma satisfação e um sentido do dever que não são, de todo, fingidos. Mas, sobretudo, para mal de mim e, não raras vezes, de quem me rodeia e se preocupa comigo, bebo. É aborrecido, porventura angustiante, estar num grupo de que não se gosta sóbrio; é muito mais tolerável estar num grupo de que não se gosta quando se está ébrio o suficiente para tudo nos parecer divertido e interessante apesar de no fundo já não querermos verdadeiramente saber de nada do que nos dizem, e não nos importamos se alguém pôs a tocar o lixo sonoro mais desinteressante e descartável, e sentimo-nos incrivelmente smooth porque todas as nossas conversas fluem admiravelmente, e tocamos muito mais nas pessoas enquanto falamos ou quando nos deslocamos, e tudo é fucking ótimo e divertido e a vida é maravilhosa e cheia de possibilidades. Mas é sempre desagradável estar naquele estado de embriaguez em que o mundo não pára quieto e só queríamos fechar os olhos e sossegar um bocadinho, foda-se, mas não conseguimos, e arrependemo-nos do que fizemos e prometemos para nós próprios que não voltamos a repetir aquilo, que estupidez, e sabemos que não nos vamos voltar a sentir verdadeiramente bem durante muito tempo, pelo menos até à manhã seguinte isto sem contar com a ressaca [7], argh, porquê, e não conseguimos seguir as conversas que vamos mantendo e tentamos dar a resposta que nos parece mais apropriada até que finalmente desistimos e pedimos desculpa ao nosso interlocutor e dizemos com voz chorosa argh bebi demais, e os nossos amigos olham-nos com um ar de pena e repugnância que sabemos que merecemos, foda-se, não temos quinze anos, que merda é esta.

    Foi também por isso que me fui deixando ficar; uma viagem de bici da Sé ao Alto dos Moinhos quando estar em pé me ia custando não parecia um plano particularmente apetecível [8], e tu foste-me tolerando lá, pensava eu, e quando eu cheguei à fase de no meu tom de criança arrependida dizer que estava bêbedo demais tu respondeste que achavas bem e que eu devia beber e libertar-me mais, e no meio de uma série de coisas sobre o contraste entre a tua personalidade e a da S. que mesmo na altura não consegui registar confessaste-me que quando ficas bêbeda começas a tentar engatar raparigas [9], e a extemporaneidade da revelação despertou-me para a possibilidade que se estava a formar. E quando fiz menção de ficar tu indicaste-me o quarto do teu colega de casa que tinha ido passar o fim-de-semana fora, e quando eu fui para lá tu vieste comigo, não valia a pena interrompermos a conversa, e quando eu te perguntei se também te querias deitar tu disseste que sim, e aí deixei de ter dúvidas [10].

    Coitado do teu colega de casa.

 
 


1 Isto dava para uma monografia, mas estas coisas fascinam-me. Não sei até que ponto será influência de ter visto o Matrix aos dez ou onze anos, esta ideia de que o espaço físico com o qual contactamos quotidianamente tem em si mais do que o óbvio que vemos ou de que nos servimos; mas dêem-me todos os dias pátios e saguões e prédios com entradas meio escondidas pela rua das traseiras; tenho frissons mentais ao imaginar corredores intermináveis com portas todas iguais e não identificadas. Segundo consta, em Nova Iorque ou Montreal há redes de galerias subterrâneas entre prédios e estações de metro, e Berlim Este está cheia de arcadas e becos e passagens entre ruas, e em Paris há uma linha de comboio abandonada que passa mesmo pelo meio do Parc Montsouris! e eu que ao contrário de, parece, todos os jovens de hoje em dia não gosto de viajar fico com vontade de ir a esses sítios só de pensar nisso. Enfim. Por cá, vou pedalando como forma de transcender a mobilidade convencional, a dos sinais de trânsito a reger tanto quanto podem um mar opressivo de caixas de metal desumanizantes e gordas e estúpidas, e crio assim a minha relação com o espaço onde me movo; viver uma cidade é isto, não é contemplá-la passivamente a dizer ‘tão giro’. A diferença entre inspirar fundo enquanto se olha para os Jerónimos e come um pastel de Belém e saber ir da Rua Lúcio de Azevedo à Rua da Saudade em catorze minutos sem olhar para um mapa é a diferença entre ver uma supermodelo a publicitar roupa num outdoor e tê-la a apertar-nos a cabeça com as coxas, a boca a saber-nos a cobre.

2 Um estuário é uma zona de transição entre um ambiente ribeirinho e um ambiente marítimo. Sofre influências do ou dos rios que o alimentam (influxo de água doce, nutrientes e sedimentos) e do mar com o qual está em contacto (influxo de água salgada, marés, ondas). O estuário do Tejo, que se estende a montante aproximadamente até Alverca, é um dos maiores da Europa, com uma superfície de mais de trinta mil hectares e grande riqueza natural, nomeadamente, nas suas áreas de mouchões, lodos, salinas e sapais, avifaunística; por esta razão, alberga em si uma Reserva Natural, cujo símbolo é um alfaiate (o pássaro, claro, não a pessoa nem o inseto, que estupidez), e uma Zona de Proteção Especial (quem se interessar por direito ambiental europeu, é irem ler a Diretiva 2009/147/CE, vulgo Diretiva Aves, está lá tudo). É também alimentado pelos rios Trancão e Sorraia e apresenta muito baixa profundidade (dez metros em média, quarenta no máximo), o que torna a navegação em maré baixa perigosa, nomeadamente nas zonas do Barreiro, do Montijo e de Alcochete. A baixa profundidade e a importância do forçamento pelas marés e pelo vento permitem a mistura entre a água doce e a água salgada, ao contrário e.g. do estuário do Mississippi. A sua zona mais larga tem o nome de ‘mar da Palha’, em referência aos resíduos vegetais oriundos das lezírias e arrastados pelo Tejo.
Estou a escrever este texto enquanto olho para outro estuário, o do Arade, em Portimão; o meu sonho é que um dia toda a gente se refira à massa de água defronte de Lisboa como ‘estuário’ em vez de ‘rio’.

3 De acordo com a teoria dos quatro temperamentos – sanguíneo, colérico, melancólico e fleumático – que seriam influenciados pelos quatro fluidos, ou humores, que se julgava regularem o corpo e a personalidade: sangue, bílis amarela, bílis negra e fleuma, vulgo ranhoca. As coisas que se aprendem a ver os vídeos do Cracked. Suponho que eu seja o fleumático, no meio disto tudo. E um bocado malgré moi, na verdade.

4 Ao contrário duma árvore que caia na floresta, uma vista não é nada, não pode existir independentemente, sem um observador que a veja; isto só é verdade devido à definição de ‘vista’, que, pelo menos em português, sendo um particípio passado, presume a existência desse observador. Daí o nome, diria Wittgenstein. Presumo.
Apercebo-me de que preciso de ter alguém entre os meus amigos que consiga falar sobre filosofia, para poder explicar e discutir coisas destas: é muito mais interessante ter amigos do que enciclopédias. Economia, também. E música! E todas as merdas banais da vida das quais não percebo nada, como carros e impostos e relações humanas e objetivos de vida e investimentos e empregos e… Bom, acho que aquilo de que me apercebo é que preciso de conhecer pessoas inteligentes e interessantes. De certeza que essas pessoas têm reuniões periódicas onde praticam sexo em grupo enquanto discutem taxas de juro e Kant e ouvem Schönberg. Mas, por outro lado, é provável que não me deixassem entrar.

5 Divirtam os vossos amigos estrangeiros com este fun fact sobre o clima de Lisboa: chove cá mais do que em cidades como Londres ou Paris, e pouco menos do que em Bruxelas ou Amesterdão. Uma chuvada de Novembro em Lisboa, daquelas que transformam avenidas em rápidos e param o metro e criam um fucking lago em Sete Rios (é assim tão difícil fazer estradas planas?! aposto que são os idiotas de Civil do Técnico) dá uma abada aos pingos desenxabidos que se soltam de vez em quando da cobertura cor de chumbo deprimente e amorfa que cobre os igualmente trombudos eurocratas bruxelenses.

6 Os seres humanos são dos melhores corredores de fundo do reino animal. Não só a nossa musculatura se adapta melhor a longos esforços do que, por exemplo, a dos chimpanzés, que apesar de conseguirem partir um pescoço humano sem dificuldades têm pouca resistência, como temos uma capacidade de transpiração que nos permite, ao contrário da maioria dos animais (os cavalos são uma exceção), que tem de parar ocasionalmente para bafejar e arrefecer-se, correr durante horas sem necessidade de parar. Esta vantagem, transpirar bem, foi essencial para o sucesso da nossa espécie e dos seus antecessores, e foi sublimada pela aquisição da capacidade de caçar em grupo.
A anidrose, ou incapacidade de transpirar, pode ser provocada por lesões na pele, agentes químicos (barbitúricos, opiáceos, anticolinérgicos), doenças como diabetes, alcoolismo, amiloidose ou síndrome de Sjogren, ou ser congénita, no caso da displasia ectodérmica hipohidrótica. Se for localizada é geralmente benigna, mas caso contrário é uma condição perigosa: transpirar tem vantagens metabólicas, cardiovasculares e imunitárias e, sobretudo, os pacientes podem ter de evitar esforços físicos e exposição a altas temperaturas, que os sujeitam a hipertermia que pode ser fatal.
As pessoas que se queixam de que “ai, ew, que horror, que nojo, estou toda transpirada” são uma vergonha para a nossa espécie: haviam de ter esta merda e morrer.

7 Nota: se alguma eu estiver ressacado, quero escuridão e tranquilidade. Não insistam em como aquilo de que preciso é de comer ou beber água, sff. Vou de certeza absoluta vomitar tudo no máximo meia hora depois, e, pelo menos para mim, estar debruçado numa sanita a suar e lacrimejar e com a boca a saber a bílis raramente melhora seja o que for.

8 Nunca pedalei verdadeiramente bêbedo, nem tenciono fazê-lo; é perigoso, irresponsável, estúpido. Mas já pedalei ligeiramente alterado; e o poder que tem a combinação de esforço, ar fresco, e prazer inerente à atividade para me pôr desperto e atinado não é despiciendo. É como ser-se adolescente e voltar a casa depois duma noitada e lavar bem a cara e ao mesmo tempo ouvir a nossa mãe a vir ter conosco para ver como estamos; um shot de sobriedade. Também já pedalei ligeiramente ressacado e foi uma maravilha; mas não garanto que, se a ressaca for daquelas referidas na nota anterior, de mal-estar intenso mas indefinido em que levantar-se ou abrir os olhos ou até ter um esquisso de pensamento faz que tudo nos doa intensa mas indefinidamente, ir levar com sol nas trombas e fumo nos pulmões não piore a situação.

9 Postulado: todas as pessoas fixes são pelo menos um bocadinho bi.

10 Tirando as referidas no início da secção, relativas à arbitrariedade dos acontecimentos, etc.

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One thought on “Straighten the rudder

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